A Odisséia (The Odyssey)

A Odisséia (The Odyssey) 1997

Direção: Andrei Konchalovsky
Elenco: Armand Assante, Greta Scacchi, Isabella Rosselini, Christopher Lee, Eric Roberts, Geraldine Chaplin,Irene Papas, Bernadette Peters, Vanessa Williams
Ano: 1997
País: EUA
Gênero: Aventura, Fantasia
Nota IMDB

Sinopse do filme A Odisséia (The Odyssey):

Adaptação para as telas do poema épico de Homero sobre as aventuras de Odisseu, herói da Guerra de Tróia, em sua viagem de retorno para casa.

Enquanto Odisseu enfrenta criaturas mitológicas e deuses enfurecidos, a bela Penélope tenta se esquivar do assédio de seus pretendentes que tentam se aproveitar da dúvida se Odisseu está vivo ou morto para tomar posse dos bens e esposa do rei de Ítaca.

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Resenha do filme / análise crítica do filme A Odisséia (The Odyssey) e seus usos em Cinema Terapia:

A Odisséia, poema épico de Homero, é retratado parcialmente nesse filme, que narra a viagem de retorno do herói grego Odisseus/Ulisses até Ítaca após derrotar Tróia. Ao despertar a fúria do deus Poseidon, Ulisses enfrenta vários obstáculos por quase 20 anos, mas enfim retorna à sua ilha natal e se vinga dos pretendentes de sua esposa Penélope.

Em uma análise bem superficial do filme, até podemos dizer que a moral da história é que devemos reconhecer nossa insignificância perante os “deuses”. Do contrário, se formos prepotentes como Ulisses, passaremos por muitos perreios na vida. Mas acredito que muitos outros ensinamentos podem ser extraídos do filme, que trata basicamente da luta entre a razão e o instinto:

A BRUTALIDADE DE MUITOS NÃO SE EQUIPARA A SAGACIDADE DE UM (CAVALO DE TRÓIA)
Muitos heróis gregos foram para Tróia, e a luta dura 10 anos. Até que Ulisses, o rei de Ítaca, tem uma engenhosa idéia: oferecer aos inimigos uma estátua de um cavalo de madeira (símbolo antigo dos instintos primitivos e do deus Poseidon), cheia de guerreiros escondidos em seu interior. Na calada da noite e já dentro dos portões da cidade, os guerreiros gregos saem do cavalo e aniquilam Tróia.

VAIDADE E HUMILDADE (POSEIDON)
Após a vitória em Tróia, os heróis gregos retornam para seus lares, exceto Ulisses, que provoca a fúria de Poseidon ao dizer de um penhasco:
- Eu, Odisseus, um homem mortal, e carne, sangue, ossos e mente. Não preciso de vocês! Sou capaz de fazer o que quiser!
Poseidon tenta convencer Ulisses de quanto o ajudou e exige sua gratidão: sem sucesso, amaldiçoa Ulisses pela arrogância, dizendo que ele jamais chegaria à Ítaca.
Após passar por muitos desafios, Ulisses só consegue voltar pra casa quando "compreende" que "sem os deuses o homem não é nada".
Sendo o próprio Poseidon reconhecido pelo primo Éolo como um vaidoso arrogante, qual a diferença entre Ulisses e Poseidon? Por que é tão difundido esse estereótipo de deus que só ajuda aqueles que alimentam sua vaidade dizendo "amém” a tudo de forma submissa, sem questionar a lógica de suas crenças? Por que alguém supostamemente poderoso precisa do reconhecimento dos mortais, da fama?
Se, ao invés de partirmos do ponto de vista religioso partíssemos do ponto de vista dos relacionamentos humanos, é emocionalmente inteligente demonstrarmos gratidão pela pessoa que nos tirou de uma enrascada: caso contrário, essa pessoa pode (com toda razão) não querer nos ajudar em uma situação de dificuldade no futuro. Nesse contexto, a humildade é a chave para a cooperação e aprendizado.

ASTÚCIA E PACIÊNCIA (POLIFERMO)
Os soldados que acompanham Ulisses acham uma caverna vazia cheia de queijo. O cíclope Polifermo entra na caverna e usa uma pedra gigantesca, impossível de ser removida pelos homens, para fechá-la.
Diante das circunstâncias desfavoráveis, ainda mais após descobrir que Polifermo era filho de Poseidon, Odisseus ardilosamente oferece vinho ao cíclope, que pergunta quem o oferece vinho, ao que Ulisses responde “Me chamo ninguém”. O cíclope dorme entorpecido, o que dá tempo pra prepararem uma madeira pra furar o olho de Polifermo... quando ele acorda cego, abre a caverna a procura de luz, gritando para seus irmãos o que “Ninguém” fez, e todos escapam se disfarçando embaixo da pele das ovelhas.
Nessa batalha entre a inteligência e o sobrenatural, a inteligência vence.

A RACIONALIDADE - E NÃO A FÉ CEGA - COMO ÚNICA MANEIRA DE ESCAPAR DOS PERIGOS DA VIDA (ÉOLO)
Éolo, deus do vento, resolve ajudar Ulisses, aprisionando o vento Leste num saco, garantindo que assim chegariam à Ítaca em 9 dias. Quando Ulisses pergunta por que Éolo o ajuda, Éolo responde:
- Poseidon é um fanfarrão, arrogante e egoísta. Ele esquece-se que o mar nada é sem o vento. Te ajudo porque és o primeiro mortal a usar a cabeça, e entendes que há sempre algo de novo a aprender. Agora, vai! E é melhor não abrir esse saco!

CURIOSIDADE E GANÂNCIA (SACO DE VENTOS)
Atena alerta Ulisses:
- A curiosidade de Anticlus será sempre um problema.
Todos os tripulantes já tinham avistado Ítaca quando decidiram abrir o saco que Ulisses guardava após visita à ilha do deus Éolo. Na ocasião Ulisses disse que só iria revelar o que havia dentro do saco quando chegassem a Ítaca, mas acreditando ser um saco de tesouros resolveram abrir, libertando assim o vento de leste, o que os mandou pro outro lado do mundo.

E OS INSTINTOS SUCUMBEM (CIRCES)
Por mais inteligente e orientado para o raciocínio lógico que Ulisses fosse, nem sempre é tão simples vencer nossos impulsos primitivos.
Ao chegar na ilha de Circes, todos os guerreiros de Ulisses são transformados por ela em animais, exceto Ulisses que é orientado por Hérmes (mensageiro dos deuses, deus da sabedoria e da medicina) a comer uma erva para ficar imune ao feitiço da bruxa.
Se por um lado Ulisses não é transformado em animal, por outro é avisado que só teria seus soldados libertados caso dormisse com Circes.
Mas Ulisses se entrega à pulsão de seus desejos, ficando 5 dias (ou melhor, 5 anos) a mais, inebriado com os encantos de Circes, esquecendo temporariamente de Penélope. Ulisses diz, ao se dar conta que passou 5 anos com Circes:
- Conspiraste com Poseidon contra mim?
Ao que Circes responde:
- Não culpes os deuses pelas tuas ações! Devolvi os teus homens, e tu permaneceste no meu leito.
Na fala abaixo de Circes, fica claro que não foi ela quem o manteve cativo por 5 anos, mas a própria fragilidade de Ulisses perante seus impulsos:
- Conheço um homem que sabe o caminho para Ítaca. Tirésias, o profeta morto. Se queres voltar a casa, tens de passar pelo submundo. Só lá encontrarás as respostas que procuras.

MAIS UM PONTO PARA OS INSTINTOS (CALIPSO)
Tirésias alerta Ulisses sobre o estreito de Cilas e Caribdes. Após escaparem de Cila, o barco cai em no redemoinho de Caribdes e o barco é destruído, restando apenas Ulisses que, após 10 dias agarrado aos destroços é jogado nas areias da ilha onde morava a ninfa Calipso. Ulisses diz que precisa ir para casa e pede um barco à ninfa, mas ela responde que não há barcos por lá, dando a entender que Ulisses jamais escapará da ilha. Ao ver um barco de passagem depois de alguns anos, Ulisses tenta fugir, mas os tripulantes do barco não o enxergam. Ulisses então é prisioneiro de Calipso, certo? Hmmm.... Depende. A conversa abaixo entre Ulisses e Calipso após Hermes dar a ordem, do próprio Zeus, que libertasse Ulisses, parece mostrar que sua permanência durante 7 anos na ilha foi mais uma “tentação” a qual Ulisses não resistiu.
- Volta para a tua Penélope!
- Por quê? Vem aí um barco?
- Não! Agora, sai. Vai a nado! Não quero saber! Ninguém vai te impedir. Sai da minha vista.
- Há pouco, saíste daqui com um olhar tão carinhoso, e agora queres que eu vá embora?
- Deixaste de ser digno de mim.
- Veio alguém falar contigo? Foi o Hermes?
- Tens de me ajudar a construir um barco. Por favor!
- Do outro lado da ilha, numa caverna, há madeira seca, trazida pela maré, tal como tu.

RETORNO À ÍTACA: POSEIDON OU FEÁCIOS?
Ulisses chega em Fiaria, onde é ajudado pelo Rei Alcino, que oferece seu melhor barco, além de comida e marinheiros feácios para levarem Ulisses a salvo até Ítaca.
Ulisses diz:
- Os feácios levaram-me para Ítaca, mas foi Poseidon quem me permitiu prosseguir viagem para ponderar nas suas palavras. Eu compreendi...que era apenas um homem no mundo, nem mais, nem menos.

FIDELIDADE
Ulisses parte para Tróia no dia do nascimento de seu filho Telêmaco, e faz sua esposa Penélope jurar que iria escolher outro marido assim que crescesse a barba de Telêmaco, caso Ulisses ainda não tivesse retornado.

Em diversos momentos vemos provas de que Penélope pretende manter-se fiel ao marido a todo custo: a conversa entre Anticléia (mãe de Ulisses) e Penélope onde a sogra diz que Penélope não deixa Telêmaco crescer, a repulsa por anos aos diversos pretendentes que batem à sua porta e o famoso pretexto que Penélope criou para adiar a escolha de novo pretendente, dizendo que escolheria um deles após terminar uma mortalha que faria em homenagem ao marido, sendo que toda noite Penélope desfazia a tapeçaria.
Mas e Ulisses, manteve-se fiel à Penélope? Se ele próprio não resistiu a seus instintos (Circes e Calipso), porque ele revela à deusa Atenas ter medo que Penélope tenha sido infiel? Agora Telêmaco já tinha barba, e não foi o próprio Ulisses que pediu a Penélope não esperá-lo caso isso acontecesse? Por que tanta fúria ao eliminar os pretendentes? Como disse um desses pretendentes:
- O que fizemos de mal? Tratamos a tua mulher como uma rainha. Comemos o que era teu,mas isso pode ser devolvido. Não matamos ninguém.
Ao que Ulisses respondeu:
- O vosso mal foi tentarem roubar o meu mundo! O mundo que construí com as minhas mãos, o meu suor e o meu sangue. O mundo que dividi com a mulher que deu á luz o meu filho. Nunca ninguém me vai separar dele! Agora, vão morrer todos, num rio de sangue!

A RACIONALIDADE - E NÃO A FÉ CEGA - COMO ÚNICA MANEIRA DE ESCAPAR DOS PERIGOS DA VIDA (ATENAS)
Atenas, deusa da sabedoria, é a protetora de Ulisses, quando percebe a prudência de Ulisses ao chegar à Ítaca, diz:
- É por isso que gosto de ti, Ulisses... Qualquer outro homem, depois de tanto tempo, teria corrido para casa para abraçar a mulher e os filhos. Cego pela sua impaciência, teria sido cortado em dois pelos intrusos. Mas tu és mais inteligente.

SENSATEZ PERANTE O ÓDIO
Telêmaco, que a tempos quer matar os pretendentes da mãe, é desafiado por um deles (Antíno) para um duelo, e num impulso juvenil aceita, sem avaliar as possibilidades, cego pelo ódio. Antíno, além de mais forte, é aconselhado a não tentar matar primeiro para que todos de Ítaca ficassem ao seu lado. Ulisses diz ao filho:
- Ainda não está na hora de lutarmos. Tens de aprender que é fácil odiarmos alguém. Mas odiarmos o homem certo, na altura certa, e pela razão certa, isso é que é difícil.
Telêmaco consegue se controlar, e no dia seguinte, conforme arquitetado por Ulisses, os pretendentes são chamados para um desafio onde o que conseguisse colocar a corda no arco de Ulisses e atirar uma flecha que atravessasse 12 machados, ficaria com Penélope e seu reino.
Com ajuda de alguns leais serviçais de Ulisses, o salão é trancado com todos dentro e Telêmaco libera seu ódio matando não só Antíno como outros pretendentes.