(Psicóloga Bianca Alves)

Lançado no mundo à própria sorte, o homem se vê sozinho, sem indicações de que caminho seguir, sem livros que o digam o que é certo ou errado, que rumo dar à própria vida. Mais do que isso, sabe que a qualquer momento esta existência, que ele não participou da decisão de iniciar, pode acabar. Diante disso o homem busca incessantemente por um sentido para a sua vida. Mas não o encontra pronto no mundo.

O homem está assim, para a fenomenologia existencial, condenado a ser livre. Por não encontrar no mundo prontas as respostas de que necessita, o homem é obrigado a fazer suas próprias escolhas, construir-se a si próprio e dar um sentido para a sua existência, sem nunca receber garantias e tendo sempre que se responsabilizar pelas suas escolhas.

Além de livre o homem é, para a fenomenologia, também só. Só porque veio para o mundo sozinho, quando morrer, estará sozinho, só, tem que se responsabilizar por suas escolhas, e mais do que isso, só, porque ninguém jamais o compreenderá por completo, em seus pensamentos e emoções estará sempre sozinho.

Diante da angústia, da solidão, da possibilidade sempre presente da morte, e da liberdade, o homem tem dois caminhos: aceitá-los assumindo a responsabilidade por suas escolhas e guiando ele próprio a sua vida, em uma existência autêntica; ou fugindo para o anonimato do ser social, confundindo-se com a massa, buscando fora de si as respostas e a determinação de sua vida, em uma existência inautêntica.

Se a liberdade, o indeterminismo e a responsabilidade por sua própria vida parecem ao homem opressores, ele pode então tentar abrir mão desta liberdade, esperando que os outros façam por ele suas escolhas. O homem passa então a justificar-se através dos determinismos sociais, biológicos, culturais ou religiosos. Perde-se nas preocupações cotidianas, nas pequenas mesquinharias do dia-a-dia. Abre mão de sua individualidade, torna-se inautêntico, “mergulha em uma espécie de anonimato que anula a singularidade de sua existência. Perde-se no meio dos outros Dasein, buscando a justificativa de seus atos num sujeito impessoal, exterior. (….) torna-se massa, alheia-se de si mesmo. Com os sentimentos embotados, incapaz de livrar-se dos hábitos e opiniões que lhe são impostos, sua consciência é atormentada por medos e ansiedades neuróticas. (…) O indivíduo – embora julgue que tudo lhe é acessível – já não consegue discutir nenhum assunto com profundidade, detendo-se na superficialidade das coisas, sem interrogar os fundamentos daquilo que discute, tagarelando sobre banalidades, ….” ( Penha, 1982).

Na tentativa de fugir à solidão, o homem inautêntico dissolve-se nos grupos. Se não pode sozinho se responsabilizar por suas decisões e apoiar-se em si próprio, apóia-se nos grupos. Mas os grupos costumam ser exigentes com seus membros e, em maior ou menor grau, exigem uma certa padronização. Em troca de aceitação o homem quando age inautenticamente abre mão de sua liberdade e autonomia.

“Temporariamente ( a pessoa) esquece a solidão, embora ao preço da renúncia à sua existência como personalidade independente. Perde assim a única coisa que a ajudaria positivamente a vencer a solidão a longo prazo, isto é, o desenvolvimento de seus recursos interiores, da força e do senso de direção, para usá-los como base de um relacionamento significativo com os outros seres humanos. (…), gente vazia não possui a base necessária para aprender a amar” (May, 1971: 29).

Mas perdido na massa, desconhecedor de si próprio, é freqüente que o homem também não se sinta feliz, é tomado por uma grande insatisfação e profundo sentimento de tédio e vazio. É comum que se sinta ansioso ou seja acometido por variadas doenças. E novamente a angústia, não possível de ser eliminada por não ser doença nem defeito, mas a própria condição do existir humano. Os fenomenologistas acreditam que na verdade é ela o alimento da vida, “é dentre todos os sentimentos e modos de existência humana, aquele que pode reconduzir o homem ao encontro de sua totalidade como ser e juntar os pedaços a que é reduzido pela imersão na monotonia e na indiferenciação da vida cotidiana (…), até o autoconhecimento mais profundo.” (Chauí, 1999).

Aceitando a singularidade, o eterno vir a ser, e sua condição de ser finito, o homem se torna livre. A fluidez, a instabilidade, e mesmo a ausência de respostas, deixam de ser opressores para ser agora a abertura para a vida plena. Se o homem não é pronto e determinado, ele pode se determinar. Se a vida parece absurda e sem sentido, ele pode para ela construir um sentido. Se a vida não oferece certezas, oferece infinitas possibilidades de ser. O homem se torna autêntico

“quando escolhe a si mesmo, quando decide encontrar-se e conquistar-se, quando faz suas próprias escolhas, quando corre os seus próprios riscos, quando encontra amparo e segurança em si mesmo, quando procura conhecer-se em profundidade, quando assume total responsabilidade pela própria existência e quando luta pela liberdade, pela autonomia e pela autodeterminação” (Lessa, 1999).

A morte deixa de ser percebida como um implacável fim, fazendo-nos sentir que estamos gastando a vida, a cada ano, cada dia, cada hora, tornando assim a existência angustiante. A morte sai do futuro e vem para o presente. Assim ela não mais nos rouba a vida, mas nos impulsiona para que a tornemos plena. A consciência de que somos finitos, nos faz realizar nossos projetos no presente, evitando a morte em vida, que talvez seja a pior de suas faces.

É importante aqui enfatizar que a solidão existencial nada tem a ver com o isolamento e sim com a singularidade. Uma vez que a pessoa aceite esta condição, se saiba única, respeite suas diferenças, busque conhecer profundamente a si própria, mantendo-se em contato com suas reais necessidades, insatisfações e desejos, ela se torna capaz de realizar trocas mais intensas, sinceras e autênticas. Ao contrário daquele que está sempre rodeado de pessoas, mas distante de si mesmo, e só é capaz de relacionar-se superficialmente.

Entendendo o homem desta maneira, um ser inacabado, capaz de significar o seu próprio ser, os filósofos e psicólogos existencialistas ou por eles influenciados, respeitadas suas diferenças, vêem justamente na ausência de respostas definitivas e de um sentido acabado, a principal motivação humana.

Se o homem não encontra fora de si, no mundo, um sentido pronto para a sua vida ele precisa estar sempre construindo um sentido novo para ela. Segundo Viktor Frankl, psicoterapeuta de influência existencialista, “o esforço para encontrar um sentido para a vida é a força motivacional fundamental no homem” (1962 : 97). (tradução dos autores)

“É importante ressaltar aqui que não se está falando de um único e genérico sentido para a vida de uma pessoa. Pois não há um sentido, há vários deles, que vão se alterando ao longo da vida de uma pessoa, na medida em que ela também muda. “O homem pergunta pelo sentido de ser porque este vai embora. (Critelli, 1996: 21)”

Apresentando a logoterapia, ao mesmo tempo em que critica o modo reducionista da ciência conhecer o homem, objetivando-o, fragmentando-o e transformando-o em coisa entre coisas, Viktor Frankl escreve:

“considera o homem como um ser cuja principal preocupação consiste em preencher um significado e em atualizar potencialidades, mais do que simplesmente em buscar por gratificação e satisfação de necessidades e instintos, ou meramente em reconciliar as conflitantes exigências do id, do ego, e do superego, ou na mera adaptação e ajustamento à sociedade e ao ambiente”. (Frankl, 1962: 103) (tradução dos autores)

A corroborar a importância central da busca por um sentido próprio para a vida, a motivar os homens, contamos com a afirmação de Nietzsche, considerado precursor do existencialismo, que diz: “Aquele que tem um porquê viver, pode suportar a quase todos os comos” (Frankl, 1962: 104). (tradução dos autores)

Outro autor existencialista que escreveu sobre motivação foi Medard Boss, psicoterapeuta amigo e seguidor de Heidegger. Boss considera a culpa a principal motivação humana. Culpa em alemão é schuld, que deriva de sculd que significa aquilo que carece e falta, “e realmente algo sempre e perpetuamente falta na vida do ser humano” (Boss, 1977). Por mais que consigamos realizar alguns de nossos sonhos, sempre haverá mais coisas que gostaríamos de fazer, por mais que nos dediquemos àquilo que fazemos, sempre acharemos que poderíamos fazer melhor, por mais que viajemos, sempre haverá lugares que gostaríamos de conhecer, por mais que amemos, sempre poderemos amar mais e mais. E o que diremos daqueles que se fecham diante da vida, se negando a viver plenamente, a realizar seus projetos, a amar e ser amado? A estes certamente a culpa será uma carga e opressão. Mas não àqueles que mesmo sabendo que nunca finalizarão sua busca, encontram satisfação em cada conquista. De qualquer forma a culpa, ou falta, estará lá, impulsionando para que todos vão atrás de seus projetos.!"

 


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