Almas à venda (Cold souls)


Almas à venda (Cold souls) 2009


Direção: Sophie Barthes
Elenco: Paul Giamatti, Dina Korzun, Emily Watson, David Straithairn
Ano: 2009
País: EUA
Gênero: Comédia dramática
Nota IMDB



Sinopse do filme Almas à venda (Cold souls):


Paul Giamatti é um ator de meia idade em crise existencial que, sob recomendação de um amigo, decide guardar sua alma por uns tempos em um "Depósito das Almas".


Apesar do alívio de suas angústias Paul, que mal dava conta de interpretar Tio Vanya (um complexo personagem do russo Anton Tchekov) antes da "extração" de sua alma, agora não consegue mais atuar.


Em busca de inspiração, Paul aluga a alma de um poeta russo mas não consegue se adaptar à sua profundidade.


Paul então tenta pegar sua alma de volta mas descobre que ela foi roubada do depósito por traficantes de almas russos. Ao lado de Nina (uma "mula" de almas), Paul parte para a Rússia em busca de sua alma, mas tê-la de volta não será tão simples quanto Paul imagina...


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Resenha do filme / análise crítica do filme Almas à venda (Cold souls) e seus usos em Cinema Terapia:


O título e a epígrafe ("A alma fica em uma pequena glândula localizada no meio do cérebro" - René Descartes) já dão uma boa idéia do que se trata o filme: a "descoberta" da localização física da alma e sua inevitável mercantilização.


O ator Paul Giamatti acredita enfrentar as mesmas angústias que o personagem que interpreta (Tio Vânia do russo Anton Tchekov): aos 47 anos, em crise existencial, Paul está angustiado, se sente de mãos atadas, fracassado, não sabe o que fazer com o tempo que lhe resta.


Um amigo recomenda o "Depósito das Almas", uma empresa que extrai as almas de seus clientes e oferece um lugar para guardá-la.


Cansado de carregar sua alma? Sua alma está te colocando para baixo? Guarde-a.
Nessa comédia surreal carregada de ironia, é com esse slogan que a companhia conquista novos clientes que anseiam por se livrar de seus sentimentos, mágoas, culpas, ou o descarte de almas (solução muito mais cômoda do que encarar de frente seus conflitos interiores, diga-se de passagem).


Em um consultório asséptico e futurista, o médico tentando vender seu peixe faz uma metáfora sobre o elefante que, quando jovem, é amarrado a uma estaca porém, quando adulto, continua amarrado a ela mesmo tendo forças mais do que suficientes para se libertar: na visão do Dr. Flinstein, assim é o ser humano, acreditando nunca poder se libertar de sua alma. Com a mesma naturalidade que hoje em dia são tratados os transplantes de órgãos, Dr. Flinstein compara uma alma aflita a um tumor que precisa ser eliminado.


Trecho impagável da conversa entre Dr. Flinstein e Paul:
- Felicidade não é fazer as pessoas à sua volta acreditarem que está feliz?
- Não preciso ser feliz. Só não quero sofrer.
- Acha mesmo que é o suficiente apenas viver sem sofrer? Todos querem ser felizes. Tenho certeza de que você não ê uma exceção...Confie em mim, quando se livra de sua alma tudo faz muito mais sentido. Tudo se torna funcional e significativo.


Tentando tranquilizar seu paciente, Dr. Flinstein diz: É só uma simples extração... Sua consciência não será afetada.


A clínica oferece a possibilidade de se olhar a alma "por dentro" mas Paul se recusa, só quer se livrar logo dela.


Após a extração, Paul é exposto a cenas onde ele deveria apertar o botão azul se não sentisse nada (sinal de que a alma havia sido "extraída com sucesso"), e o vermelho se sentisse algo.
Logo veio a minha mente os comprimidos azul e o vermelho de Matrix, onde o azul representa continuar vivendo confortavelmente na ignorância e o vermelho - tal qual a maçã tentadora de Eva - representa abraçar o conhecimento e todas as consequências que esse conhecimento acarreta.
Com os recursos que temos hoje em dia apertar o botão azul (negação do auto-conhecimento, anestesia das emoções) não seria o mesmo que tomar anti-depressivos?


A conversa entre médico e paciente que segue é, no mínimo, insólita:
- Então, como se sente?
- Vazio.
- Bom, bom. Isso é normal. O que mais?
- Bem, talvez mais leve. Leve e vazio. Entediado talvez. Mas, de modo geral, me sinto ótimo.
- Isso é perfeito. São os sintomas normais.


Dr Flinstein e Paul olham no pote a alma extraída. Do tamanho de um grão de bico, Dr. Flinstein não entende como algo tão pequeno pode pesar tanto.


Como um botox emocional, Paul perde completamente sua capacidade de sentir, que dirá expressar emoções. Sem alma, agora Paul não consegue mais interpretar seu personagem, transar com sua esposa, sentir empatia pelo sofrimento de uma amiga... Nada.


Mas... Espere Paul, seus problemas se acabaram-se! Para os "desalmados" em busca de estímulos/sensações, o "Depósito de Almas" também aluga almas de "doadores anônimos". E qual melhor alma do que a de um poeta russo para interpretar Tio Vânia? Assim, Paul volta aos ensaios, de "alma nova", dá um show de interpretação, tudo parece resolvido. Não por muito tempo.


Paul não consegue lidar com a nova alma, muito mais complexa, intensa e sofrida do que sua alma neurótica. Paul quer conhecer o(a) dono(a) da alma que alugou, mas principalmente quer sua alma de volta, então procura a clínica novamente. Dr. Flinstein descobre que a alma de Paul sumiu do depósito e (talvez como "prêmio de consolação"?) revela a Paul sobre a existência de um tráfico ilegal de almas, onde russos miseráveis vendem suas almas a preço de banana, que são transportadas para os EUA através de "mulas".


Dr. Flinstein dá o endereço de Nina, a mula que trouxe a alma do poeta russo. Ao chegar em seu apartamento, acaba descobrindo que ela transportou a alma de Paul para a Rússia, pois uma atriz sem talento e esposa de um figurão do tráfico de almas queria "pegar emprestado" a alma de um ator americano e, "como não tinha a alma do Al Pacino pegou a de Paul mesmo". Engraçado ver que, como o efeito placebo, a esposa do figurão começou a se sentir a melhor atriz do mundo com a alma de Paul, sem saber que Paul era um ator mediano...


Paul parte para São Petersburgo com Nina em busca de sua alma, mas descobre que a "atriz" está tão apaixonada pela alma de Paul que não quer devolvê-la, o que causa ciúmes em seu marido (e vai ficando cada vez mais non sense, como se isso fosse possível!).


Paul e Nina ficam sabendo que Olga (a poeta russa) se suicidou. Conseguem achar e sedar a atriz, mas quando Nina vai implantar a alma de Paul de volta, a alma resiste e não quer entrar no corpo de Paul. Para ter sua alma de volta, Paul precisa "olhá-la por dentro" para se reconectar a ela. Relutante mas sem alternativa Paul olha, vê a principio tudo vazio, depois alguns momentos de sua concepção e infância que parecem fazer todo sentido para Paul.


A alma de Olga que estava em Paul sumiu misteriosamente, evaporou. Nina, até por questões óbvias (sequestrou e sedou a esposa de seu patrão) decide sair do negócio de mulas e pegar sua alma de volta. Quando retornam à clinica em Nova Iorque, descobrem que, ironicamente, a maioria das almas não reivindicadas foram para um fundo de aplicação: a alma de Nina está nesse bolo e ainda não deram um preço de mercado para ela. Mesmo Nina tendo trabalhado lá, ainda assim respondem que não podem devolvê-la porque a empresa não faz caridade, e provavelmente a alma de Nina nem "caberia de volta", já que ela tinha um monte de resíduos das almas que transportou... Bizarro!