RECONHECIMENTO (CARÍCIAS)

Outro conceito da AT é o conceito de Carícias (do original Strokes em inglês). Na verdade essa tradução ficou meio esquisita, então iremos chamar de afeto ou reconhecimento.

A Carícia é uma unidade de reconhecimento humano.
Todos os seres humanos, sem exceção, necessitam de Carícias.
Recém-nascidos precisam de carícias físicas para sobreviver.

Eric Berne sugere que, além da fome de comida, o ser humano possui outras três "fomes" igualmente vitais para a sobrevivência:
Fome de estímulo: Estímulos sensoriais (visão, audição, tato, olfato e paladar).
Fome de reconhecimento: Ser percebido por outros seres humanos e obter Carícias positivas ou negativas (exemplo: elogio ou crítica). Nesse artigo iremos falar mais sobre essa fome.
Fome de contato: Contato físico propriamente dito positivos ou negativos (exemplo: abraço ou tapa)

Diversos estudos (veja abaixo alguns vídeos sobre as pesquisas de Spitz e Harlow) mostram que a privação afetiva e sensorial, pode causar psicoses, doenças degenerativas e até a morte. Foi daí que se concluiu que uma das fomes básicas do ser humano é a fome de reconhecimento.

A gente tem essa visão mais mecanicista de que basta comer, beber líquido e dormir pra sobreviver, mas até o clássico exemplo do homem numa ilha deserta deixa claro que essa fome de carícias também precisa ser saciada.

RENÉ A. SPITZ
Em seus experimentos, Spitz verificou que bebês sem estímulo sensorial podem desenvolver um quadro de retardamento mental.
No final do 2º ano de vida, 37,7% dos bebês privados afetivamente acabaram falecendo.

Vídeo sobre privação afetiva em crianças (Rene A. Spitz):

TRECHO DO LIVRO "OS JOGOS DA VIDA" de Eric Berne:
Spitz (2) descobriu que as crianças privadas de contacto físico por tempo prolongado tendem a enfraquecer, e podem até mesmo morrer em consequência desse enfraquecimento. Isto constitui o que ele chama de privação afetiva e pode, na verdade, ter uma consequência fatal. Essas observações deram origem à ideia de que uma pessoa pode estar carente por falta de estímulos e indicaram também que as formas mais eficazes destes estímulos são as proporcionadas pela intimidade física. Esta é uma conclusão não muito difícil de aceitar se atentarmos à nossa experiência de cada dia.

Um fenômeno correlato é visto em adultos submetidos à privação sensorial, isto é, colocados em condições experimentais de silêncio, escuridão e a menor estimulação térmica e tátil possível. Nestas condições experimentais, tal privação pode dar origem a uma psicose passageira, ou, pelo menos a distúrbios mentais temporários. Já foi observado que a privação social e sensorial têm efeitos semelhantes em indivíduos condenados a longos períodos de prisão em solitária. Na verdade, o confinamento nestas condições é um dos castigos mais temidos, mesmo por prisioneiros endurecidos pela brutalidade física (3, 4). O isolamento total tornou-se um procedimento tristemente célebre para obter transigência política. Por outro lado a melhor das armas conhecidas contra a submissão política é a melhoria do organismo social (5).

Quanto ao aspecto biológico, é provável que a privação emocional e sensorial possa produzir modificações orgânicas.
Hoje sabemos que se uma parte do sistema nervoso chamado “sistema reticular" que alimenta o cérebro não for suficientemente estimulado (6), as células nervosas podem sofrer alterações degenerativas. Uma ligação biológica pode ser portanto estabelecida, partindo-se da privação afetiva e sensorial e chegando até as alterações degenerativas e morte. Neste sentido, a fome de estímulos ou de relacionamento pode ser comparada, em termos de sobrevivência do organismo, à fome de comida.

Na verdade, não apenas biologicamente, mas também psicológica e socialmente, elas se correspondem de muitas formas. Termos como desnutrição, saciedade, “gourmet", "gourmand", voracidade, jejum, apetite, ascese e outros são facilmente transferíveis do campo da nutrição para o das emoções. O empanzinamento ou indigestão tem o seu paralelo na superestimulação. Em ambas as esferas, sob condições normais, quando há abundância e variedade de suprimentos, as escolhas serão fortemente influenciadas pelas idiossincrasias do indivíduo.

A preocupação do psiquiatra social no assunto centraliza-se no que acontece depois que a criança é separada de sua mãe, no decurso normal do crescimento. O que foi dito até agora pode ser resumido pelo dito popular (7): “O melhor para se ir em frente é um bom empurrão”. Assim, depois que o período de estreita intimidade com a mãe termina, o indivíduo se defronta pelo resto de sua vida com um dilema diante do qual seu destino e sua sobrevivência estarão continuamente em jogo. Um dos aspectos deste dilema é representado pelas forças sociais, psicológicas e biológicas que se interpõem à continuação da intimidade física no estilo infantil.
O outro, pela sua perpétua luta para consegui-la de volta. Na maioria das vezes será necessária uma posição intermediária. Ele aprenderá a se satisfazer com formas de contacto físico mais sutis e mesmo simbólicas. Até mesmo um simples aceno de reconhecimento poderá servir de alguma forma a este propósito. Contudo o básico anseio de receber de volta o contacto físico vai permanecer inalterado.

Este processo de transigir pode receber diversos nomes (por exemplo: sublimação); mas, como quer que seja chamado, o resultado é uma transformação parcial da fome infantil de estímulo em algo que pode ser denominado anseio de reconhecimento. A medida que as complexidades da vida aumentam, é este anseio de reconhecimento que faz com que as pessoas vão se tornando cada vez mais diferentes umas das outras. São essas diferenças que emprestam variedade ao relacionamento social e determinam o destino de cada indivíduo. Um ator de cinema ou de televisão pode precisar de centenas de estímulos todas as semanas, oriundos de admiradores anônimos e agrupados indistintamente, enquanto que um cientista pode se conservar física e mentalmente saudável com um estímulo por ano da parte de um mestre respeitado.

“Estímulo” pode ser usado como uma expressão geral para o contacto físico íntimo, e na prática toma variadas formas. Algumas pessoas batem numa criança; outras a abraçam ou lhe dão palmadinhas, enquanto há quem finja que a belisca ou lhe dá piparotes. Tudo isso tem seus análogos na conversação, de tal modo que é quase possível prever como um indivíduo trataria um bebê ao ouvi-lo falar. Por extensão, a palavra “estímulo” pode ser usada para caracterizar qualquer relacionamento, isto é, qualquer ato que implique no reconhecimento da presença de outra pessoa. Desta forma, o "estímulo" pode ser empregado como a unidade básica da ação social. Uma troca de estímulos constitui uma transação, que é por sua vez a unidade básica do relacionamento social.

HARRY HARLOW
A famosa experiência do psicólogo Harry Harlow com primatas mostrou a importância das Carícias, sendo tão essencial para a sobrevivência do ser humano quanto a satisfação das necessidades alimentares.

Na experiência, Harlow colocou alguns macaquinhos filhotes junto com duas imitações de mães macaquinhas. Uma delas era só de arame e tinha uma mamadeira com leite, e a outra era bem felpuda, fofinha, mas não tinha mamadeira com leite.

Harlow observou que os macaquinhos preferiam ficar aninhados na mãe felpuda, e só iam até a mãe de arame quando não tinha jeito: os macaquinhos se alimentavam rapidinho e voltavam pra mãe felpuda.

Inclusive quando os macaquinhos se sentiam assustados eles corriam pra mãe felpuda.

Vídeo sobre necessidade de amor maternal (Harry Harlow)

S. LEVINE
Levine demonstrou que qualquer carícia (mesmo as negativas) é melhor do que o abandono.

TRECHO DO LIVRO "OS JOGOS DA VIDA" de Eric Berne:
No que diz respeito à teoria dos jogos, o princípio que aqui emerge é o de que qualquer relacionamento social representa uma vantagem sobre a ausência de relacionamento. Isto foi demonstrado experimentalmente com ratos, através de um notável trabalho de S. Levine (8), no qual não apenas o desenvolvimento físico, como até mesmo a química do cérebro, foram afetados favoravelmente pela estimulação por contacto físico. Devemos contudo dizer que nestas experiências surgiu um aspecto altamente significativo: tanto os estímulos delicados e favoráveis como os dolorosos foram igualmente eficientes para manter a saúde dos animais. O que a prejudicava era a falta de estimulação.

CARÍCIA POSITIVA OU NEGATIVA
Outro problema com a tradução do inglês Strokes é que no português Carícias quer dizer uma coisa positiva. Então pode confundir um pouco, mas no conceito de Carícias da AT, a carícia pode ser tanto positiva (que é o caso de um abraço, um elogio sincero, um sorriso, etc.) quanto negativa (um tapa é um reconhecimento negativo, uma crítica é um reconhecimento negativo, um falso elogio, etc.).

A Carícia positiva convida as pessoas a se sentirem bem.

A Carícia negativa convida as pessoas a se sentirem mal, inúteis ou rejeitadas.

As Carícias também podem ser incondicionais (se recebemos pelo que somos) ou condicionais (se só a recebemos pelo que fazemos ou temos).

Como vimos acima, o estudo de Levine com ratos demonstrou que qualquer tipo de Carícia (até mesmo a negativa) é melhor do que o abandono total ou falta de reconhecimento.

Você ignorar a existência da pessoa é o pior que você pode fazer por ela.

Tanto que o castigo mais temido dos presos na cadeia é ir pra solitária, porque lá o preso não recebe Carícia nenhuma, nem mesmo negativa, e pode até enlouquecer.

O ideal seria que todos nós recebêssemos somente Carícias positivas, mas sabemos que nem sempre é assim. Como Levine já tinha alertado, se você não tem nenhum tipo de reconhecimento (se os pais são ausentes por exemplo) essa fome de reconhecimento vai continuar lá e você não só vai precisar como você vai implorar por Carícias negativas, na falta de positivas.

Um exemplo clássico do adolescente que está querendo chamar atenção dos pais que não dão a mínima pra ele, é começar a provocar, desafiar, derrubar coisas, como se dissesse "olha pra mim, reconhece minha existência, nem que seja brigando comigo".

MANIPULAÇÃO
Para obter Carícias, algumas pessoas podem usar a manipulação para provocar medo (“se você não me der um beijo vou contar pra sua mãe que você quebrou o vaso dela”), culpa (“eu dei minha vida por você e agora você nem me dá atenção”) e suborno (“se você me der um abraço te dou um chocolate”).

Em algumas famílias, as crianças são educadas sem amor, e seguem então a lei de Economia de Carícias:
Não dê Carícias positivas (nem aos outros nem a si mesmo);

Não peça Carícias positivas;

Não aceite Carícias positivas;

Não rejeite Carícias negativas.

Essas crianças tendem a participar mais de jogos psicológicos, em busca de Carícias negativas.

UM CONTO SOBRE CARÍCIAS
Neste conto, Claude Steiner, com muita sabedoria e ternura, sintetiza muitas ideias sobre Carícias.

Era uma vez, há muito tempo, um casal feliz, Antonio e Maria, com dois filhos chamados João e Lúcia. Para entender a felicidade deles, é preciso retroceder àquele tempo.

Cada pessoa, quando nascia, ganhava um saquinho de carinhos. Sempre que uma pessoa punha a mão no saquinho podia tirar um Carinho Quente. Os Carinhos Quentes faziam as pessoas sentirem-se quentes e aconchegantes, cheias de carinho. As pessoas que não recebiam Carinhos Quentes expunham-se ao perigo de pegar doença nas costas que as fazia murchar e morrer.

Era fácil receber Carinhos Quentes. Sempre que alguém os queria, bastava pedi-los. Colocando-se a mão na sacolinha surgia um Carinho do tamanho da mão de uma criança. Ao vir à luz o Carinho se expandia e se transformava num grande Carinho Quente que podia ser colocado no ombro, na cabeça, no colo da pessoa. Então, misturava-se com a pele e a pessoa se sentia toda bem.

As pessoas viviam pedindo Carinhos Quentes umas às outras e nunca havia problemas para consegui-los, pois eram dados de graça. Por isso todos eram felizes e cheios de carinhos, na maior parte do tempo.

Um dia uma bruxa má ficou brava porque as pessoas, sendo felizes, não compravam as poções e unguentos que ela vendia. Por ser muito esperta, a bruxa inventou um plano muito malvado. Certa manhã ela chegou perto de Antonio enquanto Maria brincava com a filha e cochichou em seu ouvido: "olha Antonio, veja os carinhos que Maria está dando à Lúcia. Se ela continuar assim vai consumir todos os carinhos e não sobrará nenhum pra você".

Antonio ficou admirado e perguntou: "Quer dizer então que não é sempre que existe um Carinho Quente na sacola?"

E a bruxa respondeu: "Eles podem se acabar e você não os ganhará mais". Dizendo isso a bruxa foi embora, montada na vassoura, gargalhando muito.

Antonio ficou preocupado e começou a reparar cada vez que Maria dava um Carinho Quente para outra pessoa, pois temia perdê-los. Então começou a se queixar que Maria, de quem gostava muito, e Antonio também parou de dar carinhos aos outros, reservando-os somente para ela.

As crianças perceberam e passaram também a economizar carinhos, pois entenderam que era errado dá-los. Todos ficaram cada vez mais mesquinhos.

As pessoas do lugar começaram a sentir-se menos quente e acarinhados e algumas chegaram a morrer por falta de Carinhos Quentes. Cada vez mais gente ia à bruxa para adquirir unguentos e poções. Mas a bruxa não queria realmente que as pessoas morressem porque se isso ocorresse, deixariam de comprar poções e unguentos: inventou um novo plano. Todos ganhavam um saquinho que era muito parecido com o saquinho de Carinhos, porém era frio e continha Espinhos Frios. Os Espinhos Frios faziam as pessoas sentirem-se frias e espetadas, mas evitava que murchassem.

Daí para frente, sempre que alguém dizia "Eu quero um Carinho Quente", aqueles que tinham medo de perder um suprimento, respondiam: "Não posso lhe dar um Carinho Quente, mas, se você quiser, posso dar-lhe um Espinho Frio".

A situação ficou muito complicada porque, desde a vinda da bruxa havia cada vez menos Carinhos Quentes para se achar e estes se tornaram valiosíssimos. Isto fez com que as pessoas tentassem de tudo para consegui-los.

Antes da bruxa chegar as pessoas costumavam se reunir em grupos de três, quatro, cinco sem se preocuparem com quem estava dando carinho para quem. Depois que a bruxa apareceu, as pessoas começaram a se juntar aos pares, e a reservar todos seus Carinhos Quentes exclusivamente para o parceiro. Quando se esqueciam e davam um Carinho Quente para outra pessoa, logo se sentiam culpadas. As pessoas que não conseguiam encontrar parceiros generosos precisavam trabalhar muito para obter dinheiro para comprá-los.

Outras pessoas se tornavam simpáticas e recebiam muitos Carinhos Quentes sem ter de retribuí-los. Então, passavam a vendê-los aos que precisavam deles para sobreviver. Outras pessoas, ainda, pegavam os Espinhos Frios, que eram ilimitados e de graça, cobriam-nos com cobertura branquinha e estufada, fazendo-os passar por Carinhos Quentes. Eram na verdade carinhos falsos, de plástico, que causavam novas dificuldades. Por exemplo, duas pessoas se juntavam e trocavam entre si, livremente, os seu Carinhos Plásticos. Sentiam-se bem em alguns momentos mas, logo depois sentiam-se mal. Como pensavam que estavam trocando Carinhos Quentes, ficavam confusas.

A situação, portanto, ficou muito grave.

Não faz muito tempo uma mulher especial chegou ao lugar. Ela nunca tinha ouvido falar na bruxa e não se preocupava que os Carinhos Quentes acabassem. Ela os dava de graça, mesmo quando não eram pedidos. As pessoas do lugar desaprovavam sua atitude porque essa mulher dava às suas crianças a ideia de que não deviam se preocupar com que os Carinhos Quentes terminassem, e a chamavam de Pessoa Especial.

As crianças gostavam muito da Pessoa Especial porque se sentiam bem em sua presença e passaram a dar Carinhos Quentes, sempre que tinham vontade.

Os adultos ficavam muito preocupados e decidiram impor uma lei para proteger as crianças do desperdício de seus Carinhos Quentes. A lei dizia que era crime distribuir Carinhos Quentes sem uma licença. Muitas crianças, porém, apesar da lei, continuavam a trocar Carinhos Quentes sempre que tinham vontade ou que alguém os pedia. Como existiam muitas crianças parecia que elas prosseguiram seu caminho.

Ainda não sabemos dizer o que acontecerá. As forças da lei e da ordem dos adultos forçarão as crianças a parar com sua imprudência? Os adultos se juntarão à Pessoa Especial e às crianças entenderão que sempre haverá Carinhos Quentes, tantos quantos forem necessários? Lembrar-se-ão dos dias em que os Carinhos Quentes eram inesgotáveis porque eram distribuídos livremente?


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