Fogo sagrado (Holy smoke)


Fogo sagrado (Holy smoke) 1999


Direção: Jane Campion
Elenco: Kate Winslet, Harvey Keitel, Julie Hamilton, Sophie Lee, Daniel Wyllie, Paul Goddard, Tim Robertson
Ano: 1999
País: EUA/Austrália
Gênero: Drama, Comédia
Nota IMDB



Sinopse do filme Fogo sagrado (Holy smoke):


Uma jovem australiana parte para a Índia em busca de respostas, fica fascinada por seus costumes exóticos e obcecada por um culto religioso.
Preocupada, a mãe de Ruth contrata PJ Waters, um especialista em desprogramação religiosa, para trazer sua filha de volta para casa e devolver-lhe a sanidade.
Só que o cinquentão não contava com o poder de sedução e manipulação da garota, que rapidamente vira o jogo e o coloca aos seus pés.


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Resenha do filme / análise crítica do filme Fogo sagrado (Holy smoke) e seus usos em Cinema Terapia:


O filme é bom principalmente no início. Do meio para o fim eu tive a sensação de ter degringolado um pouco, descambou pro populesco erótico, vai ver pra chamar a atenção pra um público maior, não sei. Mas no geral, passa uma mensagem que vale a pena conferir.


Ruth Barron é uma jovem mimada que parte de um vilarejo na Austrália para a Índia, em busca de novas experiências e um significado maior para sua vida. Lá se deixa encantar pelo guru Chidaatma Baba e, inebriada pela possibilidade de se tornar (uma das) esposa do guru, queima a passagem de volta. Ruth assume uma nova identidade: passa a se chamar Nasni, se veste com saris (traje típico na Índia) e se sente acolhida pela nova "família" dos fanáticos do guru.


Sua mãe Miriam fica preocupada e decide trazer Ruth de volta. Contrata o "desprogramador religioso" número um da América (P. J. Waters) e parte para a Índia com a (falsa) isca de que o pai de Ruth estaria a beira da morte. Após a notícia e chantagem emocional da mãe, Ruth concorda em voltar à Austrália.


Ao verificar o excelente estado de saúde do pai, Ruth ameaça voltar para a Índia mas é impedida por seus familiares que a forçam a passar 3 dias com PJ em uma cabana isolada. Se PJ não fosse capaz de cumprir seu intento, ela então teria a passagem de volta para a Índia.


Nesse ponto do filme, começamos a ter uma idéia de um dos motivos de Ruth ter fugido: seu pai tem um caso com a secretária e Ruth sabe de sua meia-irmã.


O programa de PJ para subjugar Ruth tem três passos: isolamento e conquista da sua confiança e respeito, retirada de todos os pertences que a liguem ao guru, fazer com que suas dúvidas caiam por terra e reconexão com a família.


Algumas frases interessantes sobre fanatismo religioso:
- O Pai Nosso é rezado por vermes paranóicos, traumatizados rastejando por uma pobre existência.
- Já pensou nos danos que podem ser causados a sua alma, ao seu centro se a entregar a outra pessoa? A uma pessoa errada?
- A alma não leva nada ao além, senão a educação e a cultura.


No primeiro dia, aparentemente PJ sai ganhando, consegue desestabilizar algumas convicções de Ruth.


No final do segundo dia, PJ exibe vídeos sobre cultos e Ruth tem uma crise, dando a entender que "caiu na real". Ela diz que sente um vazio, sente que o "amor" foi embora, pergunta se PJ a ama, fica nua... Terá sido uma estratégia de Ruth (usar seu poder sexual para testar o profissionalismo de PJ) para tomar o controle da situação ou será que ela transferiu seu "amor" de uma figura dominante (guru) para outra (PJ)?


No terceiro dia PJ está visivelmente dominado, e Ruth tira proveito para conseguir o que quer: com medo de que Ruth conte aos irmãos sobre a noite anterior, permite que a levem a um bar onde ela bebe, beija outra mulher, e quase é estuprada por dois homens. PJ não sabe até que ponto é mera crueldade de Ruth ou o quanto ela está perdida de fato... Ruth o seduz novamente, e o subjuga com o pretexto de "ensiná-lo como ela gosta de ser beijada".


No dia seguinte, Carol (assistente e namorada de PJ) chega, Ruth nua finge dormir. Mais sádica do que no dia anterior, Ruth critica sua postura de "tigrão" ou "velho babão", diz que ele deve namorar com mulheres da sua idade e o "oferece" a mulher que ele precisa: após colocar um vestido vermelho e maquiagem em PJ, apresenta a "mulher ideal" de PJ no espelho.


Quando pergunta a PJ como ela é, ele escreve "Seja gentil" na testa de Ruth. Ela então se dá conta de sua hipocrisia ao se dizer seguidora dos ensinamentos de Chidaatma Baba que pregam a bondade. Ruth percebe o quanto torturou PJ e foi cruel, mas nesse ponto o antes auto-suficiente PJ só quer que ela continue com ele. Ruth rejeita seu pedido de casamento e, temendo perdê-la para sempre, PJ bate em Ruth e a coloca no porta malas do carro.


Na estrada, PJ cruza com os irmãos e a cunhada de Ruth. A cunhada ouve Ruth no porta malas e a liberta. PJ cai exausto, de vestido e tudo, enquanto Ruth foge.


Um ano depois Ruth escreve à PJ (agora casado com Carol e pai de gêmeos) dizendo que o pai finalmente fugiu com a secretária e sua mãe trabalha com ela na Índia contra o sofrimento animal. Ruth declara que ainda está em busca da verdade, que tem um namorado, mas que ainda ama PJ, de longe, nem sabe por quê.



TRANSFORMAÇÃO
PJ no começo do filme está seguro de si, são: acredita que a inteligência e racionalidade lhe dão o poder de controlar qualquer situação ou emoção. O próprio "macho durão".


Durante o duelo com Ruth mostra seu lado mais sombrio: é cruel, competitivo, a usa para satisfação pessoal, se "rende" e se humilha como forma de conquistá-la novamente...


Finalmente seu convívio com Ruth tira seu chão, sua estabilidade, sua força, mostra sua vulnerabilidade. Agora PJ consegue prosseguir sua vida sem ver as mulheres como objetos de prazer, é perdoado por sua namorada com quem "sossega" e tem 2 filhos.


Ruth (no começo do filme) é o oposto de PJ: sonhadora, se deixa guiar por suas paixões, precisa da aprovação dos outros para se sentir valorizada, pra se sentir "alguém". É o tipo capaz de entregar seu poder ao outro se isso lhe der uma (mesmo que ilusória) sensação de que é amada.


Durante o embate com PJ, se faz de coitada, ingênua e amável quando sente que não está no comando, usa a manipulação e a dissimulação para obter poder (as mesmas armas usadas por sua mãe). Sua sombra se manifesta em todo esplendor no terceiro dia, quando humilha, despreza e subjuga PJ, invertendo o comando.


Finalmente sua auto-imagem de "boa garota" cai, e Ruth percebe que no fundo sua "carência" mascarava sua incapacidade de se doar e amar verdadeiramente. Agora Ruth consegue retomar sua busca em bases mais sólidas, e é capaz de sentir compaixão.


AMOR OU GRATIDÃO?
Quando, no final do filme, Ruth diz que ama PJ... será que ela não quis dizer gratidão?


Não uma gratidão por ele ter "desprogramado" Ruth (obviamente ele não atingiu esse objetivo, aliás esse objetivo já nem estava mais em pauta por volta do dia 2), mas por tê-la feito entrar em contato com seus "demônios" interiores? Seria Ruth grata por PJ tê-la ajudado a encarar a sua sombra e libertar a verdadeira Ruth?


Não que não fosse possível o amor entre uma figura machista (e mais velha) e uma dependente/submissa... a relação entre o pai e a mãe de Ruth (assim como tantas outras uniões) se alicerça nessa base, mas... fora o jogo e a disputa de poder, alguém enxergou alguma fagulha de amor? Como Ruth voltou para a Índia (sabendo que era só estalar os dedos e PJ ficaria com ela) e por lá arrumou um namorado, seria um amor mais paternal então?


Essa hipótese (por mim) está quase descartada, mas... Poderia ser a tal "Síndrome de Estocolmo" (onde o refém se identifica emocionalmente com o captor como forma de se defender psiquicamente)? Será que Ruth se apaixonou por aquele que a manteve em prisão domiciliar por 3 dias, uma versão "muderna" de A Bela e a Fera?