Forrest Gump, o contador de histórias (Forrest Gump)


Forrest Gump, o contador de histórias (Forrest Gump) 1994


Direção: Robert Zemeckis
Elenco: Tom Hanks, Robin Wright, Gary Sinise, Mykelti Williamson, Sally Field, Haley Joel Osment
Ano: 1994
País: EUA
Gênero: Drama, Romance, Comédia
Nota IMDB



Sinopse do filme Forrest Gump, o contador de histórias (Forrest Gump):


Forrest Gump, embora tenha um QI abaixo da média, esteve acidentalmente presente em muitos momentos históricos dos EUA. Seu amor de infância, entretanto, sempre lhe escapa.


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Resenha do filme / análise crítica do filme Forrest Gump, o contador de histórias (Forrest Gump) e seus usos em Cinema Terapia:


O filme conta a história de Forrest Gump, um rapaz com leve retardo mental que, graças a boa educação que recebeu da mãe, consegue superar suas limitações. Apaixonado por sua amiga de infância Jenny, o simplório Forrest conhece diversas celebridades por acaso, influencia outras tantas e está sempre na mídia por circunstâncias completamente alheias a sua vontade.



DESTINO/ACASO
No início do filme Forrest está sentado em um ponto de ônibus e uma pena cai aos seus pés. Ele irá se encontrar com Jenny, sua amiga de infância. Forrest coloca a pena dentro de um livro e começa a contar sua história para uma mulher sentada ao lado dele. Os ouvintes no ponto de ônibus variam conforme a história se desenrola.


Forrest conta aos seus ouvintes que a mãe dele sempre dizia que "A vida é como uma caixa de bombons: você nunca sabe o que vai encontrar”, o que poderia ser traduzido em "o destino é incerto".


A própria trajetória de Forrest é sucessão de eventos aparentemente desconexos. Ele não deseja algo específico, luta e consegue: sua realizações parecem ser muito mais fruto de "sorte" do que de mérito.


O Tenente Dan entretanto, acredita que pode controlar seu destino: todos os seus antepassados morreram como heróis em combate e ele decidiu que esse deve ser seu próprio script. Quando Forrest o salva da morte (à serviço de Deus?) ele se dá conta de que não pode controlar os acontecimentos da vida. Tenente Dan agora aleijado se entrega ao álcool, zomba de Jesus, e somente quando se reconhece impotente diante do divino e desiste de entender qual o plano de Deus é que ele "se dá bem na vida".


Jenny, assim como Tenente Dan, também acredita ter o poder mudar seu destino: seu pai a estuprava e ela queria se transformar em um pássaro para voar bem longe da casa dele. Adulta, Jenny vivia fugindo, mudando constantemente de cidade. Mas, como esse não era o destino que Deus reservou para ela, Jenny só se sentia "irresistivelmente" atraída por homens que abusassem dela, e acaba morrendo precocemente por conta de um vírus (possivelmente AIDS).


Jenny pergunta a Forrest se ele nunca pensa em quem vai ser, Forrest responde: Não vou ser eu?


No final do filme, Forrest está em outro ponto de ônibus, dessa vez com seu filho, aguardando o ônibus escolar. Forrest abre o livro que sua mãe lia para ele, a pena cai e é levada pelo vento.


No meu ponto de vista, a mensagem do filme não é dúbia, nem abre espaço para questionamentos: o destino "a Deus pertence", não temos como saber qual é esse destino e, quer nos esforcemos quer não, nada podemos fazer para alterá-lo. Então pra que tentar fugir dele? Para acabar como Tenente Dan ou Jenny? Questionar os "desígnios de Deus" (esse gozador que nos assopra ora pra cá, ora pra lá a seu bel prazer) está fora de questão, e como não sabemos o que temos reservado para nós, o melhor a fazer é "se deixar levar pelo vento".

Pode até ser que um dia eu me renda a essa crença de Forrest e sua mãe, mas hoje penso que essa é uma forma de conformidade e alienação, muitas vezes a serviço de alguns.

Também não sou do extremo de acreditar que podemos comandar todos os aspectos e rumos de nossa vida, no melhor estilo "lei da atração" ou "pensamento positivo". Além de ingênua, essa crença não leva em conta os aspectos que fogem ao nosso controle (inclusive nosso próprio inconsciente)

Quanto maior nossa habilidade de trazer à consciência nossos processos e padrões inconscientes, maior nossa capacidade de tomar as rédeas da parte do destino que nos cabe interferir.


Um dos grandes ensinamentos que a Análise Transacional (AT) me proporcionou foi o conceito de Script de Vida.

De forma bem resumida (mas aqui em nosso site você pode entender esse conceito em profundidade), ainda crianças tomamos decisões inconscientes sobre nosso futuro baseadas no que acreditamos que melhor irá garantir nossa sobrevivência e reconhecimento. Se por exemplo uma garotinha de 6 anos vê seu pai espancando sua mãe diariamente sem que ela esboce qualquer reação, essa mesma garotinha pode chegar a conclusão de que, para ser amada por seu pai, deve agir como a mãe (ou seja, aceitando sem reação o abuso). No futuro essa decisão inconsciente e irrefletida pode fazer com que ela só se apaixone por homens igualmente abusivos.

Esse mesmo mecanismo de decisão está presente quando um garotinho, em sua observação diária e tentativa de correlacionar causa e efeito, crê que só será alimentado por seus pais se demonstrar determinados comportamentos (rackets) que são aceitos e estimulados por sua família e sufocar outros comportamentos não aceitos.

Essas decisões inconscientes são facilmente esquecidas na adolescência e idade adulta, porém continuam guiando nossas ações, até que estejamos dispostos a nos conscientizar sobre essas forças internas e redecidir, agora conscientemente, sobre nosso destino (ou Script de vida).


BOA MÃE
Sabendo das limitações mentais do filho, a Srª Gump poderia ter optado pelo caminho mais cômodo: poderia ter desenvolvido uma relação simbiótica com Forrest, onde ele seria eternamente dependente dos cuidados (e caprichos) da mãe, eliminando qualquer perspectiva futura. Ela poderia se fazer de vítima, impedir (ou não facilitar) seu desenvolvimento, usar o filho como forma de conseguir simpatia dos outros e assistencialismo. Mas não: Srª Gump queria que o filho fosse independente, autônomo, seguro de si.


Srª Gump fez um excelente trabalho, sempre encorajando Forrest com mensagens otimistas, ensinando a ele (em uma linguagem que ele entenderia) a lidar com os obstáculos que Forrest encontraria em sua vida. Ela soube fortalecer a auto-estima e auto-confiança de Forrest com a maestria, dignidade e desprendimento que poucas mães seriam capazes de ter.


Quando teve de usar um aparelho nas pernas para endireitar sua coluna, Forrest atraia olhares tortos na rua. Srª Gump diz que não deveria se sentir mal por aquilo, e que Forrest não era diferente de ninguém. Aconselhou Forrest a nunca deixar ninguém se dizer melhor que ele, manter-se firme e auto-confiante.


A mãe de Forrest contava que lhe deu esse nome em homenagem a um parente que havia sido herói de guerra. É quase como Srª Gump dissesse que Forrest tinha esse potencial dentro dele, a de ser uma pessoa especial.


Por amor ao filho, chegou a transar com o diretor de uma escola que não queria autorizar a matrícula de Forrest por ele ter QI muito baixo.


Quando conhece Jenny e ela lhe pergunta se ele era idiota, Forrest responde que “Idiota é quem faz idiotice”, uma de tantas frases ensinadas pela mãe.


Além disso, a Srª Gump ensinou Forrest a não se conformar com suas próprias limitações: “Minha mãe sempre me dizia que eu iria longe com os meus sapatos”


SE CORRER O BICHO PEGA...
Jenny lidava com seus próprios problemas fugindo: ora do pai, ora da realidade (através das drogas ou de tentativas de suicídio), ora de seus amantes enfurecidos.


Quando Forrest, ainda de aparelho ortopédico, é perseguido por meninos que querem bater nele, Jenny diz: "Corra, Forrest, Corra!" Forrest consegue se livrar de seu aparelho e descobre que consegue correr mais do que um garoto normal (tanto que entrou na universidade porque o viram correndo e o convidaram para participar do time de beisebol).


Jenny dá a Forrest um tênis de corrida e ensina que, quando ele tiver um problema e não souber o que fazer, deve correr. Quando Jenny rejeita o pedido de casamento de Forrest e foge, Forrest começa correr e só para 3 anos depois.


A questão é: devemos fugir de nossos problemas ou enfrentá-los?