Peter Pan


Peter Pan 2003


Direção: P.J. Hogan
Elenco: Jeremy Sumpter, Rachel Hurd-Wood, Jason Isaacs, Ludivine Sagnier, Olivia Williams, Lynn Redgrave, Harry Newell, Freddie Popplewell, Richard Briers, George MacKay, Harry Eden
Ano: 2003
País: Reino Unido/Austrália
Gênero: Aventura, Fantasia
Nota IMDB



Sinopse do filme Peter Pan:


No clássico do autor James Matthew Barrie, o menino que se recusa a crescer convida Wendy Darling e seus irmãos João e Miguel a voar (com a ajuda do pó mágico da fada Sininho) até a Terra do Nunca, um mundo de fantasia onde vivem sereias, Meninos Perdidos e o arqui-inimigo de Peter Pan, o pirata Capitão Gancho. Após participar de fantásticas aventuras Wendy decide voltar para casa, mesmo correndo o risco de perder seu primeiro amor para sempre...


Essa foi a primeira versão para o cinema a utilizar atores. A versão de 1924 (cinema mudo) e o filme Hook - A Volta do Capitão Gancho não foram considerados.


Assistir trailer do filme Peter Pan legendado em português pt br:




Resenha do filme / análise crítica do filme Peter Pan e seus usos em Cinema Terapia:


SIMBOLOGIA
Peter Pan
Ao ouvir seus pais conversando sobre o que ele iria ser quando crescesse, Peter Pan foge assustado com as fadas para a Terra do Nunca.


Saudoso de casa, Peter Pan volta e vê através da janela fechada um menino dormindo em sua cama: decide então nunca mais crescer e parte definitivamente para a Terra do Nunca.


Qual criança nunca hesitou em abraçar a vida adulta, repleta de desafios, responsabilidades, preocupações? Quem optaria, sem oferecer qualquer resistência, por deixar para trás um mundo mágico, seguro e aconchegante para encarar um território perigoso, limitado... “chato”?


Mas essa é uma etapa de transição inevitável, exceto para Peter Pan, um dos símbolos mais conhecidos da infantilidade eterna e do escapismo.


Peter Pan não quer realizar os sonhos de seus pais, nem escolher ele próprio seu destino.


Seus únicos objetivos são a diversão e o prazer. Diante de qualquer ameaça ou restrição a sua liberdade, ele se refugia no mundo que criou para si (Terra do Nunca).


Narcisista (um exemplo é a sua reação após Wendy ter costurado sua sombra), sua busca por satisfação pessoal leva a crer que, para evitar qualquer intimidade, Peter Pan prefere atender ele mesmo seus (se existentes) desejos sexuais.


Terra do Nunca
Metáfora para a fuga da realidade, um refúgio para os que não querem crescer.


Wendy
Peter Pan sente falta do carinho e das histórias que sua mãe lhe contava. Pelo fato de Wendy também ser criança, ele permite que ela ocupe esse papel em sua vida.


Mas, como nova representante da figura materna, essa não é a única função que Wendy irá desempenhar: ela tenta fazer com que Peter Pan “encontre” sua identidade perdida (sombra) e volte à realidade.


O “beijo escondido” é um sinal de que Wendy está se tornando uma mulher. Peter Pan então é uma oportunidade óbvia de Wendy viver sua última aventura infantil, se despedir de sua infância já que no dia seguinte começa seu aprendizado com a tia Millicent.


Capitão Gancho
Assim como deus Saturno/Kronos, Capitão Gancho simboliza a maturidade. Ele reforça a crença de Peter Pan de que se tornar adulto é sinônimo de perder algo (no caso do Capitão Gancho, a mão direita). O crocodilo que engoliu um relógio e persegue Capitão Gancho outra metáfora para o Tempo (“domínio” de Saturno/Kronos).


PUER AETERNUS
O que Dionísio/Baco, Eros/Cupido, Hermes/Mercúrio, Ícaro, O Pequeno Príncipe, o coelho de Alice no País das Maravilhas, Don Juan e Peter Pan têm em comum?
Todos são representantes do Puer Aeternus, ou “Eterno Jovem”.


Na psicologia analítica ou junguiana, o Puer Aeternus é um dos arquétipos primordiais. Contem em si o lado positivo (curiosidade, ambição por metas supremas, esperança para o futuro, heroísmo, criatividade, espírito revolucionário) e o lado "negativo" (homem que se recusa a crescer e enfrentar os desafios da vida adulta, impulsividade, arrogância, megalomania).


Além das características já citadas, na maioria dos casos é extremamente dependente da mãe. Segundo Jung, distúrbios típicos incluem o homossexualismo e o complexo de Don Juan (nesse caso a imagem de “mulher perfeita” da mãe o impede de encontrar uma mulher à altura da mãe).


O Puer acredita ser um indivíduo especial, portador de dotes excepcionais que irão salvar algum dia a humanidade.


Sua busca por transcendência o faz fugir de limitações emocionais e materiais. Mas o senhor do tempo (Saturno/Kronos) adverte que Puer somente irá alcançá-la se persistir, e não será uma tarefa fácil.


Em muitos casos lhe falta a capacidade de aceitar a dor que geralmente acompanha o verdadeiro heroísmo. Sem essa capacidade, seu lema é Carpe Diem.


Paralelo a isso, Puer geralmente é indisciplinado e têm a tendência de não concluir o que começa (impaciente, ainda mais quando as coisas ficam difíceis).


Quando se depara com as vulgaridades e restrições da vida concreta, Puer pode se tornar irritadiço, birrento, cruel. Parte então em busca de novos horizontes, vivendo um estilo de vida provisório, à espera do futuro maravilhoso ao qual sente ser destinado. Prefere morrer cedo a envelhecer adaptado (ou acorrentado) a uma vida ordinária. E o mundo nunca satisfaz suas exigências: a mulher que ele namora ainda não é a mulher ideal, o trabalho não é adequado às suas inspirações... Com a cabeça no futuro, não se compromete com o presente. Como esse futuro não chega, ele pode praticar esportes como alpinismo como válvula de escape.


SENEX
O oposto, ou a “sombra” de Puer é Senex (ou “Velho”). Representado por figuras míticas como Apolo e Kronos/Saturno, é disciplinado, responsável, racional, realista, ordenado, mas também frio, austero, limitado.


TRANSTORNO BIPOLAR
Analistas junguianos correlacionaram estados maníacos com comportamentos típicos do Puer (euforia, impulsividade, subestimação de riscos, superestimação das capacidades pessoais, etc), e estados depressivos com Senex (desânimo, cautela, pensamento sistemático, baixa autoestima, etc).


Temos dentro de nós esses opostos convivendo (quase sempre) em harmonia.


No transtorno bipolar o comportamento oscila muito entre os dois opostos e há manifestações unipolares.


ÍCARO
A excessiva autoconfiança de Ícaro faz com que ele perca o contato com a realidade, seja imprudente e voe cada vez mais alto. Ao se aproximar demais do Sol (mania), a cera de suas asas derrete e ele cai nas profundezas do mar.


Se, por outro lado, Ícaro tivesse voado muito baixo (depressão), molharia suas asas, ficaria cada vez mais pesado e acabaria afundando, igualmente se isolando da realidade.


No fim das contas tudo depende do balanceamento entre opostos.


EQUILÍBRIO
Para se livrar da “maldição” de Puer, entregar-se ao trabalho que exige horário e tarefas obrigatórias, ancorar-se à realidade (que sim, às vezes é dura e repleta de sofrimento) é a saída.


Para os que guiam seus atos no princípio do dever (Senex), o ideal é se permitir fantasiar, se aventurar, experimentar novas possibilidades: dar asas à sua criança interna.


Quando ambos os polos são igualmente poderosos e “brigam” entre si, a vontade fica suspensa.


Para os bipolares então, uma reconciliação entre os opostos é o caminho. Uma união entre o dinamismo de um a ordem do outro para promover a mudança em direção a uma vida mais fluida e feliz.