EMOÇÕES AUTÊNTICAS SEGUNDO A ANÁLISE TRANSACIONAL
O conceito de Emoções Autênticas (Emoções básicas) é baseada nos estudos de Charles Darwin, Paul Ekman e Eric Berne sobre as emoções.

De acordo com Eric Berne (fundador da Análise Transacional) existem apenas 5 Emoções Autênticas (que são inatas inclusive em outros animais): Alegria, Afeto, Tristeza, Medo e Raiva

5, 6 OU 27 EMOÇÕES BÁSICAS UNIVERSAIS?
Enquanto Eric Berne sugere que são 5 emoções básicas, Paul Ekman sugere que seriam 6 (raiva, medo, tristeza, alegria, surpresa, nojo), e um trabalho mais recente (2017) de Alan S. Cowen e Dacher Keltner sugere que seriam 27 emoções básicas. 

Paul Ekman: O nojo teve e tem sua função na evolução (identificar e evitar ingerir alimentos envenenados ou estragados e passar esse ensinamento para os descendentes) mas não achamos relevante abordar nessa série de artigos sobre educação emocional. Em relação à surpresa, entendemos como uma variante de Medo.

Alan S. Cowen e Dacher Keltner: Grande parte dessas 27 emoções são variações das 5 emoções descritas por Eric Berne e Antonio Pedreira (exemplos: Satisfação = Alegria, Admiração = Afeto, Nostalgia = Tristeza, Ansiedade = Medo, Inveja = Raiva, etc)

FUNÇÃO DAS EMOÇÕES AUTÊNTICAS
Eric Berne chamou de emoções autênticas as que possuem função vital de sobrevivência individual e continuação da espécie. 
Por exemplo, a Raiva prepara nossos músculos para movimentos de ataque ou de defesa e aumentam a força corporal, essencial para superar obstáculos ou enfrentar ameaças á vida.
Já o medo nos ensina que devemos respeitar certos limites, nos prepara para a fuga e nos protege para continuarmos vivos.
A tristeza faz com que paralisem os movimentos, serve para nos restabelecer fisicamente após um embate e avaliar as perdas.
O afeto engrandece a alma, e nos induz a uma aproximação física que permite ou traz reprodução e proteção da prole.
A Alegria incentiva a ação, serve como recompensa e contagia, nos aproximando de outros seres humanos que cooperam com nossa sobrevivência.

Porém, como veremos adiante, são poucas as pessoas que expressam todas as 5 Emoções Autênticas de forma espontânea.

O QUE É DISFARCE (Emoção aprendida)
Disfarce (Racket) é uma emoção falsa que substitui uma emoção autêntica.

Na infância, nossos pais deixam claro quais Emoções Autênticas devemos sentir e expressar e quais não. Cada família tem Emoções Autênticas permitidas e proibidas, ou seja, quais Emoções Autênticas podem ser expressas e quais não podem dentro do núcleo familiar. 

Em alguns casos a criança não pode sequer nomear sentimentos proibidos, que são taxados de "perigosos" e suprimidos assim que surgem, como é o caso da raiva, do desejo sexual (que é uma manifestação do afeto) e da infelicidade (que é uma manifestação da tristeza).
A criança conclui que o estranho desconforto corporal que sente de vez em quando não é real. "Eu não sinto esse sentimento realmente, já que eu não sei o que é".

Exemplos: 
(uma mãe incentivando a filha a substituir a emoção autêntica de Alegria pelo disfarce da falsa tristeza) - Como você se atreve a estar alegre? Estou doente!

(um pai desqualificando a emoção autêntica de Tristeza do filho que acabou de perder seu peixinho) Você só está cansado, vá pra cama.

(uma mãe reprimindo a expressão da emoção autêntica de Afeto do filho, que irá substituir pelo disfarce de inadequação) -Sai daqui moleque, não vê que estou cozinhando?!

(um pai negando a emoção autêntica de Medo do filho na montanha-russa, que irá substituir pelo disfarce da falsa alegria) - Hahahah, isso é muito divertido!

(uma mãe tentando sufocar a expressão de Raiva do filho, que será substituída pelo disfarce da falsa culpa) - Onde já se viu gritar com quem deu a vida a você, seu ingrato!

As crianças entendem tais mensagens (por exemplo, não expresse a alegria ou tristeza) dos pais como ordens, já que sua sobrevivência depende disso. Seus pais saciam não somente sua fome de alimento mas também suas fomes de estímulo, reconhecimento e afeto, ou seja, as crianças dependem da aprovação dos pais para não morrer de inanição.

Essas crianças então obedecem reprimindo, não expressando ou não atuando conforme a Emoção Autêntica proibida. Ou seja, as crianças disfarçam essas emoções autênticas, criando emoções falsas ou substitutas.

Esses disfarces (Rackets) preferidos, substitutos de emoções autênticas, são passados de geração em geração. São sentimentos falsos incentivados pelos pais, e a construção artificial desses disfarces tem como objetivo obter Carícias, ou seja, ser aceito e reconhecido pela família. 

Cada família tem suas normas, conscientes ou não. Segundo Skinner "só são estáveis os condicionamentos recompensados", ou seja, toda atitude que temos na infância e que é recompensada permanece.

A cada expressão da emoção falsa (Disfarce) a criança é recompensada pelos pais e familiares com sorrisos, elogios, abraços, etc. 

Conforme a criança cresce e começa a se relacionar com o mundo exterior, ela irá procurar em outras pessoas de fora da família as mesmas Carícias que está acostumada a receber quando expressa determinados Disfarces. Ou seja, irá manipular os outros, através de jogos psicológicos, para que aquela recompensa seja obtida novamente. Porém as recompensas podem diminuir se essas pessoas não compartilham os mesmos disfarces. Para aliviar os crescentes sentimentos de insatisfação, a pessoa pode fazer um esforço imenso para ganhar mais recompensas do mundo exterior aumentando assim o Disfarce, que se torna uma repetição cada vez mais estereotipada. 

CONCEITO DE DISFARCE SEGUNDO FANITA ENGLISH, ERIC BERNE, HOLLOWAR E KERTÉSZ
Fanita English, com seu conceito de emoções substitutivas, diz que o disfarce é um substituto de uma emoção autêntica que foi proibida. O disfarce é ensinado e reforçado na infância pelos pais. Ou seja, o Disfarce é o fracasso da expressão da emoção natural (reprimida como indesejável), e essa emoção natural continua escondida abaixo do disfarce.
Fanita também define da seguinte forma os disfarces: “Emoções substitutivas que se manifestam de forma repetitiva e estereotipada, e que são compensatórias de necessidades autênticas não satisfeitas, e que foram proibidas no passado (...), visando obtenção de afagos, reconhecimento e reforços afetivos (= carícias) bem como evitar responsabilidades” 

Eric Berne define o disfarce como um sentimento aceito pela criança como forma habitual de reagir. 

De acordo com Holloway, o disfarce é produto de modelamento de um ou ambos os pais; um padrão dentro do qual a pessoa utiliza emoções ou sentimentos, numa tentativa ou manobra para se conseguir o desejado.

Segundo Kertész, cada família possui um sistema estruturado, consciente ou não, sobre as emoções que se pode sentir e expressar. Na convivência familiar, a criança aprende a intensidade das emoções e a durabilidade permitida bem como aprende a modificar qualitativamente uma emoção não aceita por outra que é encorajada pela família, conquistando assim as carícias desejadas. 

EXEMPLO DE DISFARCE EM RECÉM NASCIDO
Segundo Erskine (Sistema de Disfarces) a criança busca satisfazer as suas necessidades através da expressão emocional. É o caso da criança pequena que ainda não possui a linguagem e acorda no meio da noite com fome. A sensação é de dor. Ela chora a sua dor. Se ela foi alimentada, a gestalt fica completa e não há nenhum problema. No entanto se não for satisfeita essa sua necessidade, o choro de dor se transforma em choro de raiva, de zanga, como quem diz: "papai, mamãe, isto é sério, façam alguma coisa!". Isto é uma raiva sadia. Se nesse momento suas necessidades forem satisfeitas, não há problemas, a gestalt estará fechada. Mas se ainda assim, a criança não for alimentada, ela intensificará a sua raiva, ficando cada vez mais excitada, o que estimulará suas glândulas que descarregarão adrenalina que será levada até o estômago pela corrente sanguínea, fazendo cessar a sensação de fome. Ou seja, ela precisou ficar enraivecida para não sentir a dor da fome.
Após isto, a criança poderá voltar a dormir, não um sono reparador, mais um sono que a impeça de sentir fome, é o que Erskine chama de fechamento fisiológico de Gestalt. É um fechamento secundário, pois a necessidade não foi satisfeita. Mais tarde quando adulta, poderá ser uma pessoa em que a sua única satisfação seja a violência. Ou seja, como a necessidade continua, sempre que o ambiente externo estimular, a pessoa repetirá, de alguma forma, a experiência que resultou no fechamento secundário da Gestalt.

DOIS EXEMPLOS DE DISFARCE EM ADULTOS (Thea e Margy)
Vamos ilustrar com a história de Thea, uma garotinha alegre que tinha a mãe bem doente.  
Alegria, diversão e risadas foram proibidas por sua família em sua infância pois atrapalhavam o repouso da mãe.
Se Thea chegava animada da escola com amigos, barulhenta e despreocupada, ela era duramente repreendida, verbalmente (levando uma bronca) ou não (sua mãe franzia a sombrancelha com ar de reprovação).
Quando seu pai chegava e via Thea deprimida, dizia "ela está triste pois sua mãe está doente".
Então ela substituiu a emoção autêntica de Alegria por um disfarce de depressão, pois percebeu que era OK expressar tristeza mas NÃO OK expressar alegria.
Thea se casou com um homem que inconscientemente reforçava a mesma proibição de expressar alegria. Thea era agora uma mulher adulta e depressiva. Foi somente aos 65 anos que Thea,  em um grupo de terapia, ganhou permissão para finalmente expressar alegria, e gargalhou alto.

Margy tinha um disfarce de inadequação.
À Margy nunca foi permitido expressar raiva com sua boa mãe, que foi superprotetora com a "pobre coisinha cega". A mãe entretanto frequentemente expressava irritação e impaciência.
Um dia seu terapeuta perdeu as estribeiras diante dos persistentes choramingos de Margy mas Margy foi incapaz de expressar raiva, ainda que totalmente justificada. Margy simplesmente seguiu choramingando o que, no passado, garantiu a ela Carícias de culpa artificial de sua mãe. Margy aprendeu a identificar sentimentos de raiva quando os tinha, e o sinal era quando suas pálpebras tremulavam para frente e para trás.

OUTRAS FORMAS DE DIFERENCIAR EMOÇÃO AUTENTICA DE DISFARCE
Na emoção autêntica, a origem está em um estímulo ambiental real no aqui-e-agora. No disfarce, a origem foi programada a partir de estímulos ambientais no passado.

A duração da emoção autêntica é proporcional à duração do estímulo ambiental. No disfarce, a duração é longa, persistente e repetitiva.

Na emoção autêntica, a intensidade da reação é proporcional à qualidade, intensidade e magnitude do estímulo ambiental. No disfarce, a intensidade da reação é desproporcional, e permanece após a retirada do estímulo ambiental que provocou a emoção. 

EMOÇÕES AUTÊNTICAS E SEUS RESPECTIVOS DISFARCES
Geralmente os sentimentos ou percepções que estão sendo suprimidos estão em uma categoria DIFERENTE da representada pelo Disfarce. Ou seja, um disfarce de depressão não esconde uma emoção autêntica de tristeza; um disfarce de hostilidade não esconde raiva, etc.
Algumas vezes esses sentimentos ou emoções autênticas estão mais do que suprimidos. A pessoa nunca realmente "experimentou" esse sentimento ou emoção e praticamente precisará aprendê-lo.

TESTE: COMO VOCÊ SE SENTE DIANTE DA SEGUINTE SITUAÇÃO?
Imagine que todas as lojas e supermercados vão fechar por vários dias, que amanhã começa um feriado prolongado, e sua casa está desabastecida. Faltam ítens básicos, a comida está no fim e você precisa fazer compras hoje. Aí você se dá conta que o supermercado vai fechar daqui a pouco, você entra no carro e vai até o supermercado mais próximo. Quando chega lá, o supermercado está lotado, você começa a pegar nas prateleiras os ítens que precisa, e fica aliviado porque percebeu que conseguiu concluir as compras alguns minutos antes da loja fechar.
A caixa começa a passar os produtos e agora você precisa pegar o dinheiro pra pagar mas não consegue achar a carteira. Você procura de novo, e aí se dá conta de que na pressa acabou esquecendo a carteira em casa. Tem uma fila imensa atrás de você e você explica a situação pra caixa do supermercado e pergunta se poderia deixar seu nome, endereço e RG e levar os ítens e voltar depois do feriado prolongado pra pagar. A caixa se desculpa mas diz que não pode aceitar. E agora você não tem tempo pra ir até em casa pegar a carteira pois o portão já fechou, você não tem dinheiro e terá que voltar pra casa sem os ítens que precisa.
Quando você percebe sua situação, como se sente?
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NÃO LEIA O TEXTO ABAIXO ANTES DE DESCREVER COMO SE SENTE
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No mesmo cenário, cada pessoa vai se sentir de uma forma diferente, e ter uma resposta emocional completamente diferente da sua.
Alguns podem se sentir com vontade de chorar, outros poderão se sentir estúpidos e envergonhados, outros podem se sentir raiva do mundo, etc.
O sentimento que você acabou de identificar é provavelmente o que você sempre sente diante de situações de estress. Esse sentimento é provavelmente um sentimento que foi modelado e encorajado por sua família, e quando surgem outros sentimentos que foram desencorajados ou proibidos na sua infância, esse sentimento que você descreveu irá substituir o sentimento proibido.
O sentimento que você descreveu é um Disfarce (Racket)

DISFARCES, JOGOS PSICOLÓGICOS E TRIÂNGULO DRAMÁTICO
Segundo Fanita English: "existem apenas dois padrões de Jogos psicológicos, quaisquer que sejam os nomes "chiques" que possamos dar a eles em cada contexto:

  • Um é o "Agora te peguei seu FDP" que engloba o Disfarce Tipo I (jogo iniciado pelo estado de ego Criança - indefesa ou malcriada - do jogador A que busca extrair uma resposta do estado de ego Pai do jogador B)

  • O outro é o "Me bata" que engloba o Disfarce Tipo II (Jogador A se comporta como uma imitação falsa do estado de ego Pai - prestativo ou mandão - que busca extrair uma resposta do estado de ego Criança Adaptada - Criança Submissa ou Rebelde - do jogador B)

O final de cada jogo resulta de uma mudança no estado de ego do jogador A, que termina no estado de ego OPOSTO do qual começou.

Exemplo: No jogo psicológico "Porque você não? Sim, mas..." o jogador A começa o jogo representando o papel de uma Criança indefesa (Vítima) em busca de conselhos. O Jogador B, em seu estado de ego Pai (Salvador), oferece soluções ao problema apresentado. O jogador A rejeita todas as soluções oferecidas por B, quase como se dissesse "Seu Pai não é OK". No final, o jogador A muda para o estado de ego Pai (Perseguidor ou Pai Crítico) ao dizer "Você não me ajudou em nada" (Criança Rebelde - "Agora te peguei seu FDP") e o jogador B se sente como uma Criança inútil e fracassada (Vítima - "Me bata").

ABANDONO DOS DISFARCES
Um dos principais objetivos da Análise Transacional é o abandono gradual dos disfarces e simultaneamente a facilitação do sentir, expressar e atuar as emoções autênticas. 

O abandono dos disfarces deve ser realizado gradualmente por dois motivos:
1) É preciso levar em conta que os disfarces possuem uma função de suporte para o indivíduo, e, retirá-lo repentinamente acarretaria um vazio existencial que precisaria ser preenchido. 
2) O abandono imediato poderia provocar descontrole no indivíduo, que poderia assumir atitudes impulsivas e imprudentes.

Steiner & Perry desenvolveram uma escala de tomada de consciência das emoções que possibilita uma conscientização sobre a supressão/expressão das próprias emoções. Do nível mais baixo para o mais elevado, a escala é a seguinte:

Insensibilidade: Você não tem consciência de seus sentimentos. 

Sensações Físicas: Suas emoções são registradas fisicamente (por exemplo, na forma de dores de cabeça ou tontura), mas você continua inconsciente das emoções em si.

Experiência primitiva: Você tem consciência das emoções, mas não sabe o que significam. Não consegue discuti-las nem compreende-las.

Diferenciação: Cruzando a barreira verbal e falando sobre seus sentimentos, você aprende a estabelecer a diferença entre emoções como raiva, amor e alegria.

Causalidade: Você é capaz não apenas de falar sobre cada emoção separadamente, como também de perceber as suas causas.

Empatia: Você está em contato com as emoções de outras pessoas 

Interatividade: Você é dotado de profunda sensibilidade para o fluxo das emoções circundantes e a maneira como interagem.

DICAS DE FILMES
Filme Divertidamente (Inside Out 2015), fala sobre 5 das 6 emoções básicas (Raiva, Medo, Tristeza, Alegria e Nojo) categorizadas por Paul Ekman (que prestou consultoria para esse filme)
Série Lie to me, baseada na história do Paul Eckman, que fez um mapa das emoções e sua relação com as respectivas micro expressões faciais.

LEITURA RECOMENDADA
A expressão das emoções no homem e nos animais - Charles Darwin
Facial Action Coding System - Paul Ekman
O Que Você Diz Depois de Dizer Olá? - Eric Berne
Rackets and Racketeering as the Root of Games - Fanita English
A Hora e a Vez da Competência Emocional - Antonio Pedreira