FILMES SOBRE AUTOESTIMA BAIXA:
O PERSONAGEM CONQUISTA AUTOESTIMA POR CONTA PRÓPRIA

A estranha passageira (1942)

Charlotte Vale tem autoestima baixa* e possui alguns padrões de PENSAMENTOS AUTOMÁTICOS E DISTORÇÕES como por exemplo Rotular**

Sua mãe*** (Henry Vale) deixa claro que seu amor pela filha é condicional (só ama enquanto sua filha aceitar desistir da própria vida para ser sua acompanhante e empregada), e que ela não é a filha querida

Para que seu plano tenha sucesso, sua mãe usa de algumas táticas e COMPORTAMENTO TÍPICO DE PAIS DE CRIANÇAS COM BAIXA AUTOESTIMA como:
1) Abusos (faz a filha engordar e se vestir de forma que não seja atraente para nunca se casar e deixá-la)
2) Desvalorizações (Faz sua filha acreditar que ela não tem valor como pessoa, nunca será querida por ninguém, e é um patinho feio que não tem saída a não ser ser a solteirona que cuida da mãe)
3) Perfeccionista, a mãe controla cada aspecto da vida da filha: toma as decisões pela filha na tentativa de incutir Culpa, Deveres/Obrigações (deixa claro que espera que Charlotte retribua sua "boa maternidade" se comportando como uma filha submissa).
4) Incentiva os familiares**** a Criticar, Desvalorizar e Abusar de Charlotte (BODE ESPIATÓRIO)

Na adolescência, Charlotte se apaixona***** e tenta fugir do seu SCRIPT DE VIDA planejado pela mãe, porém sua mãe boicota sua tentativa.

Após um colapso nervoso, Charlotte recebe ajuda de um psicólogo e parte para uma viagem de navio como parte do tratamento iniciado no sanatório. Sua autoestima melhora visivelmente, e ela começa a se libertar de sua Maldição.

Apesar do filme também ser um romance, decidi não colocá-lo na categoria dos filmes que o personagem conquista uma melhor autoestima através do outro (o amor do "outro" que nos dá uma falsa sensação de valor próprio, porém totalmente vulnerável à opinião desse outro sobre nós, e que pode variar a qualquer momento), já que a paixão entre os amantes nesse filme é coadjuvante (mas não essencial) de um processo interno de Charlotte, encabeçado pelo Dr. Jaquith.

Ao voltar pra casa, sua mãe continua usando as mesmas táticas****** (Pai Crítico, Abusos, Desvalorizações, Culpa, etc) para manter Charlotte fiel ao papel que escolheu pra filha no SCRIPT DE VIDA que planejou cuidadosamente para ambas.

Agora mais forte, Charlotte consegue enfrentar******* a mãe. 
E então começa uma longa batalha******** para deixar de fazer parte dessa peça trágica. 

Charlotte abre mão do papel de empregada da mãe*********, mesmo sob forte relutância da mãe, e percebe que não depende mais desse amor condicional tóxico para se sentir bem consigo mesma e seguir sua vida da sua própria maneira.

*- Não tem opinião muito boa sobre você mesma, tem?
- Talvez isto o ajude a entender por quê. Você me mostrou o seu álbum, vou lhe mostrar o meu. Uma foto de minha família.
- Que família. Sua avó?
- Não, minha mãe.
- De personalidade forte, eu diria. E estes?
- Meus irmãos e suas esposas.
- Mas são bem mais velhos.  Quem é a senhora gorda de sobrancelhas grossas e este cabelo?
-Uma tia solteirona.
-Cadê você? Estava tirando a foto?
- Sou a senhora gorda de sobrancelhas grossas e aquele cabelo. Sou a coitada da tia Charlotte, e estive doente. Estive em um sanatório por três meses. Ainda não estou bem e...
- Perdoe-me. Está se sentindo melhor?
- Bem melhor. Graças a você. Sou muito grata a você.
-Grata por quê?
-Por dividirmos o carro... por passearmos juntos para ver os pontos turísticos... pelo almoço e pelas compras... e por me ajudar a sentir que houve alguns poucos momentos em que quase me senti viva. Obrigada.
**- Sou imune à felicidade.
- Se eu fosse livre, haveria só uma coisa que gostaria de fazer. Provar que você não é imune à felicidade.
***1)- Quer saber de fatos sobre minha filha? Ou os imaginados por Lisa?
-Algo que seja interessante.
-Charlotte foi uma filha temporã. Tive três meninos e, depois de muito tempo, esta garota. A criança da minha velhice, como sempre a chamei. Estava na faixa dos 40 anos, e o pai morreu assim que ela nasceu. Meu patinho feio. É claro que é verdade que os temporões ficam marcados.
- Com freqüência, estes filhos não são queridos. Isso os marca.
- Sempre a mantive por perto. Quando ela era muito nova eu tomava todas as decisões por ela. Sempre as decisões certas. A gente pensa que uma filha desejará retribuir a bondade da mãe.
2) - Minha querida Sra. Vale, se planejou destruir a vida de sua filha... não podia ter feito melhor.
-Como? Usando os direitos maternos?
- Os direitos das mães nada. Uma filha tem direitos. Uma pessoa tem direitos. De descobrir seus erros, de crescer e desabrochar em seu próprio solo.
- Vamos falar de botânica, doutor? Somos flores?
****Sempre implicamos com a tia Charlotte. É brincadeira!
*****- Quero me casar com sua filha. Estamos noivos para nos casarmos.
- Os oficiais se dirigem aos passageiros desta forma?
- Dirija-se ao meu alojamento já, Trotter. 
- Vá para a sua cabine.
- Eu disse que estava feliz. E estava feliz. Ele tinha desafiado minha mãe e me colocado em um trono. E diante de uma testemunha também. Foi o momento mais orgulhoso da minha vida. Meu momento não durou muito, como pode ver. Minha mãe não achou que Leslie era apropriado a uma Vale. Qual homem é apropriado, doutor? Ela nunca encontrou um. Qual homem olharia pra mim e diria que me quer? Estou gorda. Minha mãe não permite dietas. Veja meus sapatos. Minha mãe gosta de sapatos sérios. Veja os livros na minha estante! Minha mãe aprova livros bons e íntegros.Sou a filha adorada dela. Sou acompanhante dela. Sou empregada de minha mãe.
******- Está pior do que Lisa me fez pensar. Bem pior... Usarei meu vestido branco. Gostaria que usasse seu preto-e-branco de fular.
-Perdi 11 kg. Não vai entrar.
-Vai. Seus vestidos foram todos apertados. Pedi à Srta. Till que ficasse até mais tarde caso algum ajuste precisasse ser feito.
- Pensou em tudo, não foi, mãe?
- Espere um pouco. Tem mais uma coisa que quero lhe dizer. Agora que está curada, pode voltar. E reassuma sua função de filha. Dispensei a última enfermeira. Vou colocá-Ia em um quarto no mesmo andar que eu. Devido ao meu coração, é bom tomar as precauções. Ocupará o quarto de seu pai de agora em diante. William levou todas as suas coisas ontem. Seus móveis, livros e tudo.
- Mas, mãe...não tem o direito de levar minhas coisas.
- Não tenho o direito de mudar dentro da minha própria casa? Não estou surpresa por ter ficado ruborizada. Eu estava no quarto quando William tirou os livros da estante. E deixe-me dizer que o que encontramos escondido Iá foi um grande choque pra mim. Só espero que este episódio vergonhoso na sua vida esteja totalmente no passado.
-Com sua licença, mãe.
- Acho que, se usar óculos esta noite, chocará menos os outros. E tire o que estiver usando no rosto. E, quanto ao seu cabelo e sobrancelhas... digamos que, após uma doença séria, o cabelo caia mas está deixando o seu crescer o mais rápido possível.
*******- 0 que vai fazer neste quarto?
-Vou dormir aqui.
- Não sabe que quero que alguém durma no mesmo andar que eu?
- Podemos colocar uma empregada, ou mesmo trazer a enfermeira de volta.
- Nós? Como pago as contas, eu administro a casa. Por favor, lembre-se de que é uma hóspede.
- Se sou, trate-me como tal, mãe. Sua hóspede prefere dormir neste quarto. Se não se importar.
-Não é hora para brincadeira. Se isso acontecer, eu me importo. De onde vieram essas flores?
-De Nova York.
-Quem as mandou?
- Eu me esqueci do nome do florista. Acho que está na caixa.
- Já vi. A caixa foi entregue a mim antes. Você sabe muito bem o que quero dizer. Quem lhe enviou as flores?
- Não mandaram cartão.
- Em outras palavras, não quer me dizer.
- Mãe, não quero ser desagradável ou indelicada. Vim para casa morar com a senhora de novo. Mas não pode ser do mesmo jeito. Tenho vivido minha vida e tomado minhas decisões há muito tempo. É impossível voltar a ser tratada como criança de novo. Não acho que eu vá fazer nada para lhe desagradar...mas, mãe, de agora em diante, precisa me dar total liberdade incluindo decidir o que visto, onde durmo, o que leio.
- Onde comprou este vestido?
- Lisa e eu compramos em Nova York hoje.
- É ofensivo. Onde está o de fular preto-e-branco?
- Dei à Srta. Till. Ela ficou tão agradecida. Mãe, por favor, seja boazinha e me encontre Iá embaixo.
- Eles me disseram que minha recompensa por ter uma temporã era o meu conforto na velhice, principalmente se fosse menina. Em seu 1º dia em casa, após uma ausência de 6 meses, age assim.
********-Quanto custou este vestido?
-Foi extremamente caro. Eu lhe conto pela manhã.
-Para quem enviou a conta?
- Para quem sempre pagou minhas roupas, mãe.
- E espera que eu pague por artigos que não aprovo?
- Bem, posso pagá-Io eu mesma. Economizei um pouco de dinheiro. Tenho algo em torno de US$ 5 mil.
-US$ 5 mil não vai durar muito. Principalmente se sua mesada for cortada.
- Mãe, quero lhe perguntar uma coisa. Quando meu pai abriu uma conta para os dois filhos.. por que não abriu uma para mim também?
- Porque era uma criança. E, sabiamente, deixou você por minha conta. Tenho certeza de que sempre teve tudo o que quis no mundo.
-Não tive independência.
-É isso. É sobre isso que quero falar. Independência. Comprar o que escolher. Vestir o que escolher. Independência. É o que acha que isso significa, não?
- 0 Dr. Jaquith diz...que independência é confiar na própria vontade e julgamento.
- Eu tomo as decisões aqui, Charlotte. Deve ficar em seu antigo quarto até eu dispensar a enfermeira. Ela ocupará o quarto do seu pai por enquanto... e você cumprirá seu papel de filha igual ao das enfermeiras. Isso lhe dará uma boa chance para pensar no que lhe disse. Fico feliz por dar a uma filha dedicada um lar junto a mim... e pagar todas as suas despesas...mas não se ela refutar minha autoridade.
- Posso ganhar minha vida, mãe. Aliás, já pensei nisso.Posso ser uma boa garçonete...
-Acha isso muito engraçado. Garanto que não acharia graça, se colocasse em prática o que sugeri.
- Acho que sim. Não tenho medo, mãe. Não tenho medo. Não tenho medo, mãe.
-Charlotte, sente-se. Quero que saiba de uma coisa que nunca lhe contei antes. É sobre meu testamento. Você será o membro mais poderoso e rico da família Vale. Se eu não mudar de ideia. Aconselho que pense bem.
********* - Nunca fez nada para orgulhar sua mãe. Ou para orgulhar a você mesma também. Devia ter vergonha de ter nascido e ser Charlotte Vale. Srta. Charlotte Vale.
- 0 Dr. Jaquith diz que a tirania é, às vezes a expressão de um instinto maternal. Se isso é o amor de uma mãe, não o quero. Não queria ter nascido! E você também não! Foi uma calamidade de ambos os lados!

 

Uma mulher descasada (1978)

 Nesse filme, nada é dito sobre os pais da personagem Erica e nem sobre a formação de sua autoestima (que parece ser saudável). 
Porém o filme é um ótimo exemplo de como uma situação circunstancial comum (ser abandonado/a após um relacionamento de longa data) pode mexer com a nossa autoestima, e também um grande aprendizado de como não se precipitar se jogando no primeiro relacionamento que aparece por pura carência. 

Como muitas mulheres, Erica casou-se com seu primeiro namorado. Quando seu marido revela que está apaixonado por outra mulher e decide partir, Erica se sente sem chão, perdida, deprimida e solitária. 

Pra muitas pessoas, esse momento pode fazer com que se sinta culpada pelo fracasso da relação e consequentemente ficar com autoestima baixa, se sentindo responsável pelo fim do relacionamento. Esse parece ser o caso de sua amiga Elaine, que está com baixa autoestima* desde que se divorciou, e se sente mal consigo mesma.

É natural que o amor dos outros nos ajude a sentir nosso valor como pessoa, e isso torna mais fácil a gente mesmo se amar. Mas a AUTOestima, como o próprio nome diz, não tem nada a ver com aprovação externa: é incondicional e inabalável pelas circunstâncias e frustrações da vida. 

Quando "ganhamos" a estima dos outros, ela não é nossa AUTOestima, e ficamos vulneráveis às oscilações de fora: um dia o outro pode nos amar, no dia seguinte não mais. 

É cômodo (e ilusório) acreditar que nossa autoestima pode ser melhorada pela aprovação, amor, elogios de outra pessoa, mas todos conhecemos pelo menos um caso de gente que, mesmo sendo profundamente amada por outra(s) pessoa(s), não consegue reverter a falta de amor próprio.

Através da terapia**, Erica aprende a desvincular seu valor como pessoa de fatores externos, e também aprende a perder o medo de ter sua autoestima machucada novamente por outro homem.

E é aí que o filme (que poderia caminhar pra mais um romance onde a "mocinha" aumenta a autoestima depois de conhecer um novo par) fica genial: Erica fortalece sua autoestima e não se deixa cair na cilada de jogar a responsabilidade de melhorar sua autoestima no colo de outra pessoa (Outro-estima)***.

Ainda que se envolver em um relacionamento mais sério com Saul parecesse ser um caminho agradável e seguro pra sua autoestima, Erica fica atenta aos riscos de se colocar, de novo, nas mãos de outra pessoa, e decide ir com calma****. Afinal, quando a gente realmente se ama, não tem a necessidade (nem a urgência) de nos envolver com qualquer um só pra nos dar uma falsa sensação de completude.

*- Auto-estima. Eu poderia escrever um livro sobre autoestima. "A auto-estima e a mulher americana". Uma vez divorciada, ...dormindo por aí, bebendo demais ...fingindo ter um monte de "auto-você-sabe-o quê".  Realmente tendo nada ao lado.
- Você está menstruando, Elaine?
- Claro. Mas também não tenho porra nenhuma de confiança.
**- Onde quer que eu vá eu vejo... casais. Vejo pessoas de mãos dadas ou seus braços em volta uns dos outros... de rosto colado ou... Eu sinto ciúmes. Oh, eu tenho muito a dizer, sabe, no final do dia. Digo tudo a Patti. Penso nela, sabe, indo embora para a escola e, ... Eu sei que é um par de anos de distância, mas... eu penso nisso como se fosse acontecer, sabe, amanhã.
- Sim.
- Eu... Acho que estou sozinha.
- Eu estava muito solitária também quando me divorciei.
- Não sabia que era divorciada.
- Sim. E certamente não há problema em se sentir solitária. Você supõe estar numa situação como esta. É o que se espera. Realmente não há problema em sentir alguma coisa. Raiva, ciúme... depressão. Não há problema em sentir.
- Eu ... eu me sinto culpada sobre meus sentimentos.
- Bem, a culpa é algo que eu fico lívida sobre ela... porque é um tipo de emoção artificial. E... Gostaria de ver você tirar umas férias da culpa. Pare de se sentir culpada por uma semana. Apenas ... Apenas diga: "Érica, desligue a culpa." Apenas desligue-a. Não sinta culpa. Ela não te leva a lugar nenhum. Ela realmente prolonga a agonia. E ... 
- Eu sei o que quer dizer. Vou tentar.
- Sim. E não se sinta culpada sobre sentir culpa, também. E não se sinta envergonhada dos seus sentimentos. Eles são seus sentimentos. Eles não têm Q.I. Eles não têm moralidade. Eles são seus sentimentos. Apenas sinta-os.
- Quando você se divorciou?
- Eu me divorciei três anos atrás. Mas, vamos voltar para você e a solidão. Quando você era casada, você se sentiu sozinha?
- Não, não realmente. Não.
- Nunca?
- Não. Bem, às vezes, mas eu não estava com medo, então, sabe? Isso me assusta.
- É assustador. É um maneira de vida totalmente nova. Alguma vez já se percebeu querendo ficar sozinha?
- Sim! Mas eu sabia que não ia ser para sempre.
- Isso te deu a sensação de ser sempre? Do jeito que sente agora?
- Bem... Eu não tive relações sexuais por sete semanas. Faz sete semanas, desde que Martin me deixou. Eu sempre pensei no sexo como algo garantido.
- Você está se sentindo sexy hoje em dia?
- Dificilmente. E... Do que eu estava falando?
- Sexo.
- Oh, sim. Estava esperando que você esquecesse. Bem, nós apenas tivemos uma vida sexual muito boa, sabe. Eu só... era muito... Isto não é divertido.
- Não.
- Eu só... Eu gostava de sexo. Era ... Era bom. Éramos muito... selvagens, Martin e eu.
- Diga, o que quer dizer com isso. O que ... O que quer dizer com, vocês eram muito selvagens?
- Bem, nós tivemos uma boa vida sexual.
- Como exatamente ela era?
- Jesus! O que você acha que aconteceu? O que acontece?
- Você parece muito irritada. O que é isso, afinal?
- Se eu soubesse disso, eu não estaria aqui.
- Bem, o que vai fazer a respeito?
- Você está olhando para mim como se eu tivesse as respostas. Eu não tenho a resposta para você. Posso dizer o que eu faria... se fosse eu e eu estivesse na sua situação...
- O quê?
- Bem, eu faria muito do que você já está fazendo. Eu gastaria muito tempo com minhas amigas... como você está fazendo. E eu também me pegaria pela mão e diria: "Vamos, Tanya. Entre na corrente da vida. "Volte para lá." "Não tenha medo de sair com rapazes." "Vamos abrir a porta, sair e entrar no fluxo da vida. "
- Homens, hein?
- Sim, homens. Eu arriscaria. Eu arriscaria com alguns novos homens. Eles são pessoas, sabe. Eu acho que você poderia apreciá-los. Dê uma chance.
- Sim. Acho que eu deveria.
***- Onde você gostaria de ir jantar?
- Não posso, Saul. Minha filha está voltando pra casa da escola. Iremos comer em casa.
- Bem, ligue pra ela. Diga pra se juntar a nós.
- Não!
- Bem, ela não tem que saber que sou seu amante.
- Você não é meu amante.
- Bem... Você, você sabe o que quero dizer.
- Não sou muito boa em esconder meus sentimentos, Saul.
- Quais são seus sentimentos?
- Bem, eu ... eu acabei de dormir com um homem que mal conheço. Quer dizer, sexo casual não é o meu ...
- Não, não.
- Eu ... eu não ...
- Não, não é ... eu não durmo com cada mulher que conheço.
- Estou experimentando. Eu ... Bem, eu sei que soa um pouco frio, mas isso é o modo que é hoje em dia. Só quero ver como é fazer amor com alguém por quem não estou apaixonada.
- Como você se sente?
- Uma espécie de vazio.
- Bem, pelo menos você é honesta.
- O sexo foi muito bom.Você é um homem muito bom.
- Você tem um jeito bizarro de distribuir um elogio.
- Foi o melhor que pude fazer.
- Por que você flertou comigo na galeria?
- Acho que foi mútuo.
- Ah, jogos bobos que nós jogamos. Não há nenhuma necessidade deles, sabe.
- Quer saber como realmente me sinto?
- Sim, quero.
- Assim que o sexo acabou, eu queria ir embora.
- Isso é muito hostil.
- Não me sinto hostil. Gosto de você.
****1)- Oh, olhe, escute. Eu, eu ... eu sei que você quer sair por conta própria. E eu aprovo. Eu não tentaria impedi-la.
- O que quer dizer, você aprova?
- O quê?
- Não entendo essa palavra. Por que está dizendo que aprova?
- Oh, olhe.
- Não estou fazendo isso para sua aprovação, sabe?
- Não, ouça. Deixe-me terminar.
- Não, isso não é realmente o que eu tenho em mente.
- Por favor. Tudo o que eu quis dizer foi ...
- Eu odeio isso.
- Sim. Tudo o que eu quis dizer foi que, se ... Bem, passar algumas semanas com alguém que você gosta, não é fora do normal.
- Como você sabe? Como você pode dizer isso? Como sabe o que eu preciso, o que eu quero fazer por mim?
2) - Você sabe o que eu fiz ontem? Eu joguei fora um pote inteiro de geléia de amora - novo. Martin adorava geléia de amora. Acho que o problema era que eu não fazia as coisas pra mim, sabe. Eu fazia coisas como esta ... Martin e Érica, Martin e Érica. Não foi culpa dele. Eu ... eu gostava.
- Saul e Érica será diferente de Martin e Érica.
- Você quer ver outras mulheres?
- Eu quero você!
- Você está livre para isso.
- Eu não quero.
- Então, não.
- Você quer ver outros homens?
- Não hoje.
3) - Independente?
- Tentando ser.
- Mulher. Perversa.
- Não. Honesta.

 

Gattaca (1997)

Vicent tinha todos os elementos de uma autoestima baixa
1) Os pais o consideram um doente incapaz*, em uma sociedade extremamente eugenista que nega qualquer chance de ascensão social aos que, assim como ele, tiveram uma concepção natural (sem a manipulação genética da fertilização in vitro).
2) Seu irmão mais novo é a CRIANÇA DE OURO, o filho mais querido**.
3) Seus pais não incentivam sua independência e nem confiam no seu potencial, COMPORTAMENTO TÍPICO DE PAIS DE CRIANÇAS COM BAIXA AUTOESTIMA.

Não fica claro no filme qual foi o "ponto de virada" de Vicent, ou seja, quando e como Vicent conseguiu parar de se enxergar como seus pais e a sociedade o viam e passou a enxergar seu valor próprio, estimar-se e insistir em sua meta.

Pode ser que, na falta de pais reais (e sociedade) que desse a ele palavras de incentivo e apoio, o próprio Vicent criou um PAI INTERNO NUTRITIVO (processo que se chama REPARENTALIZAÇÃO).

O fato é que essa transformação de sua autoestima foi um processo interno, uma luta solitária contra todos os fatores externos*** dizendo não, e que o ajudou a superar seu SCRIPT DE VIDA****.

*Desde cedo, passei a me ver como os outros me viam...um doente crônico. Cada queda, cada resfriado eram tratados como algo fatal.

**"E ele herdará as características de vocês. As melhores que têm. Uma concepção natural jamais conseguiria tal resultado". Foi assim que meu irmão Anton veio ao mundo. Um filho que meu pai considerava digno de seu nome. 
...Anton era, de longe, mais forte. E ele não admitia perder.

***- Desde que me conheço por gente, sonho em ir ao espaço... Minhas metas não mudaram durante a adolescência, para a aflição de meus pais.
- Vincent? Você tem de ser realista. Com seu problema de coração...
- Mãe, há uma probabilidade de eu não ter nada.
- Uma em 100.
- Escute, pelo amor de Deus. Você tem de entender uma coisa. Você só entrará numa nave se for para limpá-la.
- Meu pai tinha razão. Não importava quanto eu mentisse no meu currículo... meu verdadeiro currículo eram minhas células. Por que eles investiriam dinheiro para me treinar quando havia mil outros candidatos com melhor potencial? Claro, é ilegal discriminar. Eles chamam de "geneoismo". Mas ninguém leva as leis a sério.


****- Vai perder o seu vôo, Vincent.
- Para alguém que não foi feito para este mundo, devo admitir...de repente, está sendo difícil deixá-lo.

 

Sociedade dos poetas mortos (1989)

Nesse filme, escolhi dois personagens para explorarmos a baixa autoestima: Todd Anderson e Neil Perry.

TODD ANDERSON
Todd vive na sombra de seu irmão mais velho (CRIANÇA DE OURO), que foi um dos melhores alunos da renomada escola*. Ou seja, Todd é o filho menos querido da família

Seus pais demostram pouco (ou nenhum) interesse em Todd (cena do presente de aniversário), COMPORTAMENTO TÍPICO DE PAIS DE CRIANÇAS COM BAIXA AUTOESTIMA

Todd tem baixa autoestima e um conceito negativo de si mesmo**, é tímido, tem medo de se expressar em público ou ler em voz alta***.

Todd possui padrões de PENSAMENTOS AUTOMÁTICOS E DISTORÇÕES (Comparações desfavoráveis**, quando diz que, ao contrário de Neil, ninguém o ouve)

Com apoio do professor Keating ele se torna autoconfiante e corajoso, e mostra uma visível melhora em sua autoestima. Essa melhora não depende de condições externas (aprovação dos outros), já que foi um trabalho interno de conquista da autoestima que nunca teve.

1)Sr. Anderson, você tem um exemplo difícil a seguir. Seu irmão foi um dos melhores.
2)O irmão do Todd é o Jeffrey Anderson. Primeiro da turma, aluno de Prestígio Nacional.
** 1)- Todd, você vem esta noite?
- Não.
- Por que não? Você estava lá, ouviu o Keating. Não quer fazer alguma coisa?
- Sim, mas...
- Mas o quê?
- O Keating disse que se revezavam na leitura e não quero ler.
- Você tem um problema com isso, não tem?
- Não, não tenho um problema. Eu só... não quero fazer, está bem?
2)
- Ouça, Neil. Aprecio sua preocupação, mas não sou como você, está bem? Você diz uma coisa e as pessoas ouvem. Não sou assim.
- Não acha que poderia ser?
- Não! Não sei, mas isso não vem ao caso. O caso é que você não pode fazer nada, então caia fora. Eu posso cuidar de mim mesmo, está bem?
- Não.
- Como assim "não"?
- Não.
***- Quem é o próximo? Sr. Anderson, vejo que está agonizando. Vamos, Todd, venha. Vamos tirá-lo do seu sofrimento.
- Eu não consegui. Não escrevi um poema.
- O Sr. Anderson acha que tudo dentro dele é inútil e vergonhoso. Não é verdade, Todd? Não é esse seu maior medo?
- Acho que está enganado.
- Acho que você tem algo dentro de você que vale muito.
Meu brado... bárbaro... ecoa... acima dos telhados... do mundo. W.W. Tio Walt de novo. Para quem não sabe, um brado é um grito ou voz alta. Todd, eu gostaria que você desse um brado bárbaro. Vamos, não pode bradar sentado. Vamos. Vamos. Levante-se. Precisa se colocar em postura de brado.
- Um brado?
- Não um simples brado. Um brado bárbaro.
- Brado.
- Vamos, mais alto.
- Brado.
- Isso é um rato. Mais alto.
- Brado.
- Bom garoto.
- Grite como um homem!
- Brado!
- Isso. Viu, você tem um bárbaro dentro de você. Não vai se livrar com tanta facilidade. A foto do Tio Walt lá em cima. O que ele te faz lembrar? Não pense. Responda.
- Um homem louco.
- Que tipo? Não pense.
- Um maluco.
- Quero uma resposta melhor. Use sua imaginação. Diga a primeira coisa que aparecer na sua cabeça. Mesmo que seja bobagem.
- Um homem dentuço suado.
- Muito bem, afinal, há um poeta em você.
- Feche os olhos. Feche os olhos. Feche. Agora descreva o que vê.
- Fecho os olhos.
- Sim.
- Uma imagem flutua ao meu lado.
- Um louco dentuço suado?
- Um louco dentuço suado com um olhar... que golpeia meu cérebro.
- Isso é excelente. Faça ele fazer algo.
- As mãos dele me estrangulam.
- É isso aí. Maravilhoso. Maravilhoso.
- E ele está balbuciando algo.
- O quê?
- Balbuciando, "A verdade. A verdade é como um cobertor que sempre deixa seus pês com frio".
- (alguns alunos começam a rir) Esqueça eles, esqueça. Fique com o cobertor. Fale do cobertor.
- Você empurra, estica, nunca há suficiente. Você chuta, bate, nunca nos cobrirá. Desde que chegamos chorando atê partirmos mortos. Só cobrirá seu rosto, enquanto você berra, chora e grita.
(longa pausa então a classe aplaude) - Nunca esqueça disto.

NEIL
Neil é popular, ousado e confiante. A baixa autoestima de Neil não é tão evidente quanto a de Todd, e se revela apenas no relacionamento com seu pai. 

Desde pequeno, seu pai o obrigou a ser a pessoa que ele queria*, sem considerar seus sentimentos. É rígido, perfeccionista e nutre grandes expectativas em relação ao filho**, COMPORTAMENTO TÍPICO DE PAIS DE CRIANÇAS COM BAIXA AUTOESTIMA. Neil se sente intimidado pela forma autoritária como seu pai o trata, e não ousa confrontá-lo.

Pai e filho vivem uma relação tipicamente de PAI CRÍTICO---CRIANÇA SUBMISSA***.

Seu pai não demonstra nenhum amor por ele, no máximo cria uma expectativa de uma recompensa futura por seu "bom comportamento", o que obviamente demonstra um amor condicional: Neil só será amado se seguir o futuro que seu pai traçou pra ele.

A necessidade de respeito e apreciação é muito importante na construção da autoestima. Apesar de ser bem tratado por amigos e respeitado por todos os professores, seu pai nunca o respeitou, apreciou Neil pelo que ele era, ou lhe deu a chance de administrar sua própria vida. 

Numa perspectiva da Análise Transacional (AT), me parece que Neil tinha uma INJUNÇÃO "NÃO EXISTA" (pretendo me aprofundar nas INJUNÇÕES no futuro), já que seu pai queria apenas um fantoche para realizar suas ambições, e não um filho, um ser humano com desejos e vontade própria. Enquanto Neil estava na CRIANÇA SUBMISSA, tudo corria bem. Quando a CRIANÇA REBELDE**** de Neil finalmente é despertada pelo professor ela decide, baseada na raiva e desejo de vingança pela opressão sofrida a anos: (SPOILER ADIANTE!) "Vou me matar pra te machucar"*****. Uma única e última expressão de poder de Neil, que de outra forma não tinha poder.  

*- Neil, acabo de falar com o Sr. Nolan. Acho que você escolheu muitas atividades extracurriculares este semestre. Decidi que você deveria largar o anuário da escola.
- Mas este ano serei editor assistente.
- Sinto muito, Neil.
- Mas, papai, não posso. Não seria justo.
- Rapazes, podem nos dar licença?
- Nunca mais me desafie em público, entendeu?
- Eu não estava desafiando...
- Depois que você se formar, poderá fazer o que bem entende. Até lá, fará o que eu disser. Ficou bem claro?
- Sim, senhor. Sinto muito.
- Sabe como isto é importante para sua mãe.
- Sim, senhor. Você me conhece. Eu sempre faço coisa demais.
- Esse é meu garoto.
... 
- Por que seu pai não lhe deixa fazer o que você quer?
- Neil, desobedeça. Não pode ficar pior que está.
- Essa é boa! Como se vocês desobedecessem seus pais, Sr. Futuro Advogado e e Sr. Futuro Banqueiro.
- Eu não gosto tanto quanto você.
- Então parem de me dizer como devo falar com meu pai. Vocês são iguais.
- Tudo bem. Nossa.
- O que você vai fazer?
- O que devo fazer. Largar o anuário.  
**Neil, esperamos muito de você este ano. (professor)
- Ele não nos decepcionará. Não é, Neil? (pai Sr Perry)
- Farei o possível, senhor. (Neil Perry)

***- Já não chega você perder seu tempo com essa idiotice, mas além disso você me engana! 
- Pensei em fazer uma surpresa. Tirei nota A em todas as aulas.
- Achou que eu não descobriria? "Minha sobrinha está numa peça com seu filho", disse a Sra. Marks. Eu disse que não, deveria estar enganada pois meu filho não estava numa peça. Você me fez mentir, Neil! Amanhã você vai atê lá dizer que desistiu.
- Não posso. O papel principal é meu. A apresentação é amanhã á noite.
- Não quero saber se o mundo vai acabar amanhã á noite. Você vai largar essa peça. Ficou claro?
- Sim, senhor.
- Fiz muitos sacrifícios para você chegar aqui, Neil, e você não vai me decepcionar.
- Não, senhor. 
****1)Todos temos uma grande necessidade de aceitação. Mas você deve acreditar que suas crenças são únicas, são suas, mesmo que outros as achem estranhas, raras. Apesar do gado dizer, "Isso é muuuuuuito ruim". Robert Frost disse, "numa floresta e eu peguei a menos andada". Isso fez uma grande diferença". Quero que encontrem seu próprio andar agora. Seu próprio jeito de caminhar, andar. Em qualquer direção. O que você quiser.
2) Desde que eu me lembre quero tentar ser ator. Eu tentei até fazer uns testes no verão, mas é claro que meu pai não deixou. Pela primeira vez na minha vida, eu sei o que quero fazer. E pela primeira vez, eu vou fazer, meu pai querendo ou não! Carpe diem!
3)- Acabo de falar com meu pai. Vai me fazer largar a peça em Henley Hall. Atuar é tudo para mim. Mas ele não sabe. Eu o entendo. Não somos uma família rica como a do Charlie e... Mas ele está planejando minha vida para mim e eu... Ele nunca me perguntou o que eu quero fazer.
- Já falou para seu pai o que está me dizendo? Sobre sua paixão pela atuação? Mostrou isso para ele?
- Não posso.
- Por que não?
- Não posso conversar assim com ele.
- Você está atuando para ele também. Está no papel do filho submisso. Sei que parece impossível, mas você tem que falar com ele. Tem que mostrar quem você é, seu coração.
- Eu sei o que dirá. Dirá que atuar é uma fase e eu deveria esquecer. Que estão contando comigo. Dirá para eu tirar da cabeça, "para meu próprio bem".
- Você não é um servente. Se para você não é fase, prove isso para ele... através da sua convicção e paixão. Mostre isso a ele e se ele ainda não acreditar, então você terá saído da escola e poderá fazer o que quiser.
- Não. E a peça? O show é amanhã á noite!
- Então você tem que falar com ele antes de amanhã á noite.
- Não há uma maneira mais fácil?
- Não.
- Estou encurralado.
- Não está. 
*****- Estamos tentando entender por que você insiste em nos desafiar. Seja lá qual for a razão, não vamos deixá-lo arruinar sua vida. Amanhã vou tirá-lo da Welton e colocá-lo na Escola Militar de Braden. Você irá para Harvard e será doutor.
- Mas isso levará dez anos. Papai, isso é uma vida!
- Pare com isso. Não seja tão dramático. Você faz parecer como se fosse para uma prisão. Você não entende, Neil. Você tem as oportunidades com as quais nunca sequer sonhei... e não vou desperdiçá-las.
- Tenho que lhe dizer o que sinto.
- O quê? O quê? Dizer-me o que sente. O que sente? É sobre esta história de atuar? Se for, pode esquecer. O que é?
- Nada.
- Nada?
- Então vamos para a cama.

 

A cor púrpura (1985)

Celie tem baixa autoestima. Dos Abusos* sofridos por quem acreditava ser seu pai, nasceram dois filhos, que foram violentamente tirados de Celie. 
Ela parece ter acreditado que os Abusos e Críticas** que sofreu foram por sua Culpa, e então via com naturalidade que o homem que foi obrigada a se casar e as pessoas que a conheciam a maltratassem também. Submissa***, jamais questionou se a forma como era tratada tinha algo a ver com o seu valor real como pessoa.

Como vimos antes, na infância nossa estima é construída a partir da estima de nossos pais, ou seja, se nossos pais nos estimam e elogiam, desenvolvemos uma boa autoestima. Se ao contrário não somos amados pelos pais, também não iremos aprender a nos amar.

Saciar a FOME DE AMOR E RECONHECIMENTO**** é comprovadamente tão essencial para nossa sobrevivência física quanto saciar a fome de comida e a sede. Nesse filme belíssimo, vemos cada personagem lidar da sua própria maneira com a falta de estima e amor incondicional dos pais. Ou seja, não é uma coisa determinista (se seus pais não te estimam, você NUNCA irá se estimar), mas totalmente cambiável e possível: 
1) Celie aceitava seu destino passivamente. Ao descobrir que seus filhos foram levados para a África e iriam voltar para conhecê-la, Celie ganha uma injeção de ânimo e se enche de esperança pelo reencontro com seus filhos e a promessa de tempos melhores. Celie decide fugir do marido abusivo sem a menor perspectiva de conseguir se manter viva longe da prisão que viveu tantos anos. Em um golpe de sorte, Celie descobre que tinha um pai biológico que deixou uma herança para ela e sua irmã, e finalmente conquista sua autonomia abrindo uma loja de calças de cidade. Celie se torna mais autoconfiante e consegue construir sozinha uma autoestima mais elevada.

2) Sofia apanhava de todos os familiares na sua infância e quando adulta decidiu que preferia ser a que bate do que a que apanha (conseguiu desenvolver uma autoestima saudável).

3) Shug lutou desesperadamente pela atenção do pai, um pastor muito conhecido da região, e quando viu que era inútil decidir cair no mundo. Porém o amor e admiração que recebia dos homens que conheceu jamais substituiu o amor que esperava receber do pai.

*Um dia, papai me disse: "Tem de fazer o que sua mãe não faz!" Agora, tenho duas crianças do papai. Um menino chamado Adam. Ele o levou enquanto eu dormia. E uma menina chamada Olívia... que ele arrancou de meus braços.
**Celie, você tem o sorriso mais feio desse mundo.
***(Nettie): -Não deixe que te desrespeitem! Mostre quem é que manda.
- (Celie): -Ele manda.
- (Nettie): -Precisa enfrentar, Celie. Precisa.
- (Celie): -Não sei fazer isso. Só o que sei fazer é continuar viva.
**** É, Celie. Tudo no mundo só quer ser amado. A gente canta e dança e grita... porque quer ser amada. Olhe as árvores. Elas fazem tudo que a gente faz pra chamar a atenção... menos andar.

 

 

FILMES SOBRE AUTOESTIMA BAIXA:
O PERSONAGEM NÃO CONQUISTA AUTOESTIMA POR CONTA PRÓPRIA (ROMANCES OU "OUTRO"ESTIMA) 

Casamento Grego (2002)

Toula tem baixa autoestima. Se acha feia e inadequada*. 

Tem 2 irmãos, e a mais velha é a "CRIANÇA DE OURO"**, ou seja, Toula é o filho menos querido da família.

Além disso, a origem de sua baixa autoestima parece estar numa mistura de "PAI CRÍTICO" (seu pai faz comentários negativos sobre ela*** e a trata como incapaz, COMPORTAMENTO TÍPICO DE PAIS DE CRIANÇAS COM BAIXA AUTOESTIMA) e uma família que usa a CULPA para manipulá-la****. 

Sua família promove 3 valores tradicionais, e esperam que Toula os cumpra: casar com um homem grego, ter bebês gregos, e alimentar a todos até o dia de sua morte. Por essa passagem, somos levados a crer que o amor de seus pais é condicional.

Toula possui padrões de PENSAMENTOS AUTOMÁTICOS E DISTORÇÕES (tais como Comparações desfavoráveis* e Deveres/Obrigações*****) que a fazem crer que seu papel é assumir os deveres que sua família lhe apresenta e deixar que pisem nela.

Sua família parece sempre ter escolhido tudo por ela, o que a faz se sentir mais incapaz, insegura e desesperançosa******

O roteiro segue a fórmula do mito do "O patinho feio", onde um filhote de cisne é chocado no ninho de uma pata, e por isso é humilhado por ser "diferente" (assim como Toula é humilhada na escola), até que sua beleza oculta é descoberta. 

A diferença entre filme e mito é que no mito a descoberta é feita pelo próprio "patinho feio" (que vê seu reflexo no lago ao lado de outros cisnes e descobre que ele é na realidade um lindo cisne) e no filme a descoberta é feita pelo par amoroso de Toula. Ou seja, a autoestima da protagonista é melhorada, mas não por um trabalho de autoconhecimento e cultivo de amor próprio (começar a estimar a si mesmo), e sim por uma "outro-estima", ou seja, o amor expresso de outra pessoa pela protagonista. Quando a descoberta do nosso valor como pessoa vem de fora, isso nos mantém dependentes da aprovação externa.

O herói mítico de Joseph Campbell que irá ver a beleza da donzela, encoberta por camadas de julgamento, e liberá-la de sua maldição é o personagem Ian: Toula o acha atraente mas incapaz de conquistá-lo. 

Quando Ian demonstra interesse em Toula, ela se surpreende, e teme que sua família não irá aceitá-lo, já que ele não é grego. 

Toula vai pra faculdade e se torna uma agente de viagens bem sucedida, o que a ajuda a ganhar um pouco mais de confiança.

Outro personagem que parece contribuir para liberá-la de seu Script de Vida é seu irmão Nick, que diz: "Toula... não deixe que seu passado decida quem você é... mas deixe-o fazer parte da pessoa que você será."

* Desde criança, eu sabia que eu era diferente. As outras meninas eram louras e delicadas... e eu, aos 6 anos, era morena e tinha costeletas. Queria tanto ser como as meninas populares, conversar com elas...
** Eu tinha 12 anos, Athena, minha irmã mais velha e perfeita, 15... e meu irmão Nick, 11.
*** 'É melhor você se casar logo. Está começando a ficar velha'. Meu pai me dizia isso desde que eu tinha quinze anos...
**** 1)Minha mãe sempre fazia pratos cheios de ternura, sabedoria...sem esquecer o acompanhamento de culpa fumegante.
2) - Papai. Eu estava verificando o estoque... e notei que fizemos vários pedidos sem necessidade. Acho que precisamos modernizar nosso sistema. Poderíamos comprar um computador. Não sei se você se lembra, mas eu só tirava A em computação. Só que tem muita coisa nova pra aprender. Se você quiser... posso ir pra faculdade e fazer uns cursos.
- Por que...por que quer me abandonar?
- Não vou abandonar você. Não quer que eu faça algo na vida?
- Sim! Case-se! Tenha filhos! Você está tão... velha!
3) Não podemos nos casar. Não assim. Quando estou com você...fico tão feliz...mas minha família fica infeliz...e nosso casamento deveria ser uma alegria...  mas não será para eles porque não será na nossa Igreja.
4) - Meu casamento está matando o papai?
- Toula, seu pai é seu pai. Ele só quer que você seja feliz.
- Mas eu estou feliz.
***** Boas garotas gregas sem marido trabalham no restaurante da família.
****** Eu queria ter uma vida diferente. Ser mais corajosa, mais bonita... ou simplesmente feliz, mas é inútil sonhar... porque nada jamais muda.
 

 

FILMES QUE O PERSONAGEM SEGUE SEM MUDANÇAS EM SUA AUTOESTIMA ORIGINAL (ALTA OU BAIXA)

Forrest Gump (1994) - Disponível na Netflix

FORREST
Forrest Gump é um exemplo clássico de que autoestima alta nada tem a ver com habilidades reais que a pessoa possui de fato.

Sua mãe sente amor incondicional por Forrest, e apresenta COMPORTAMENTO TÍPICO DE PAIS DE CRIANÇAS COM ALTA AUTOESTIMA, ou seja, pais que valorizam* os filhos, incentivam sua independência**, são afetuosos, nutrem expectativas adequadas em relação ao filho e confiam na criança.

Acreditamos no que nossos pais e familiares nos dizem a nosso respeito, e essa é a base da construção da autoestima: se nossos pais nos estimavam, iremos nos estimar também. Forrest apesar de suas limitações acredita no conceito que sua mãe tem dele, e por isso tem uma boa autoestima.

*1)Quando nasci, mamãe me deu o nome de um herói da Guerra Civil
2)Nunca deixe ninguém dizer que é melhor do que você. Lembre-se do que eu disse.Você não é diferente dos outros. Ouviu o que eu disse, Forrest? Você é igual a todo mundo. Você não é diferente!
3) - Você é idiota, ou o quê?
- Mamãe diz que idiota é quem faz idiotice.
**- O seu filho é... diferente, Sra. Gump...O QI dele é 77.
- Bem, somos todos diferentes, Sr. Hancock.
- O Estado exige um QI mínimo de 80 dos alunos da escola pública. Ele terá de ir para uma escola especial e vai se dar bem lá.
- O que é "normal", afinal? Ele pode ser um pouco lento... mas quero que Forrest tenha as oportunidades como os outros! Não irá para uma escola especial aprender a recauchutar pneus! São sô cinco pontinhos. Deve haver algo que possa ser feito.
- Temos um sistema educacional avançado. Não queremos que ninguém fique para trás.Existe um Sr. Gump, Sra. Gump?
- Ele está de férias.
- A sua mãe se preocupa mesmo com sua educação, garoto.

JENNY
Jenny tem baixa autoestima e os motivos são óbvios: Com um pai abusador* e orfã de mãe, Jenny cresce acreditando que, se seu pai a maltratava, é porque ela devia merecer já que não tinha valor como pessoa. É um comportamento típico de crianças abusadas acreditar que a culpa** é sua, de que ela não é OK.

A personagem também mostra o quanto nossa autoestima depende antes de mais nada da estima de nossos pais na infância, e o quão difícil é se tornar um adulto com uma auto estima saudável, pois ainda que você conheça pessoas que te valorizem na vida adulta você não consegue acreditar que tem valor próprio se não teve isso na infância***

*Jenny nunca queria ir para casa... Aos 5 anos, sua mãe foi para o céu. O pai dela era fazendeiro, acho. Ele era muito carinhoso. Estava sempre beijando e tocando, a ela e as irmãs dela.
- Deus, me faz virar pássaro para eu poder voar para bem longe daqui.
Ele não fez Jenny virar pássaro naquele dia. Em vez disso, fez a polícia dizer que ela não precisava mais ficar naquela casa. Ela foi morar com a avó, na Av. Creekmore
**- Ele não devia bater em você, Jenny!
- Ele não faz isso por mal.
**1)- Não pode continuar tentando me salvar o tempo todo, Forrest.
- Eles tentaram agarrar você!
- Muita gente tenta me agarrar!
2)- Por que é tão bom para mim?

 

Shine (1996)

David possui baixa autoestima. Seu pai e avô apresentam COMPORTAMENTO TÍPICO DE PAIS DE CRIANÇAS COM BAIXA AUTOESTIMA (Pai Crítico*, geram culpa nos filhos e os desvalorizam).

David possui PENSAMENTOS AUTOMÁTICOS E DISTORÇÕES tais como: Supor/Generalização excessiva/Rotular** (Exemplo: Se meu vô e pai dizem que sou inútil e mau é porque é verdade) e Personalizar***

*1)Meu avô era muito religioso, muito rigoroso e maldoso.
2)O fato é que ele não aprovou. Ele é muito crítico.
**- Sou insensível. Papai diz isso. Um pouco maldoso...Talvez não tenha alma.
- Por que diz isso?
- Papai diz que isso não existe.
- Isso é ridículo.
- Ridículo, você está certa. Sou ridículo e insensível.
***Eu me comportei mal, não foi?... Posso ser punido pelo resto da vida. Porque sou um inútil.
 

Clube dos cinco (1985) - Disponível na Netflix

Uma coisa em comum entre os personagens ANDREW, CLAIRE e BRIAN é que seus pais sentem amor condicional por eles:
ANDREW
Seu pai espera que ele seja o estereótipo do atleta que usa a dominação física para exercer poder sobre os outros, e só o valoriza quando Andrew se comporta dessa forma.

*Andrew: - E o bizarro disso...É que eu o fiz pelo meu pai. Torturei esse pobre garoto porque queria que meu pai achasse que sou legal. Ele sempre fica falando sobre as coisas sabe, de quando ele estava na escola e as coisas malucas que fazia. Eu sentia que ele estava desapontado porque eu nunca zoava ninguém, certo? Ele é como uma máquina sem cérebro que eu não posso me relacionar.
"Andrew! Voce tem q ser o número 1! Não vou tolerar nenhum perdedor nessa família."

CLAIRE
Seu pai "compra" seu afeto com presentes, e incentiva Claire a se comportar como a "riquinha superficial", que se contenta com bens materiais e vê seu valor como pessoa atrelado ao que possui.

BRIAN
Os pais de Brian o pressionam pra estudar, ser o melhor e "tirar boas notas".

Os pais de ALISON e BENDER exibem COMPORTAMENTO TÍPICO DE PAIS DE CRIANÇAS COM BAIXA AUTOESTIMA (Pai Crítico, geram culpa nos filhos, dão Carícias negativas, mostram Desinteresse, cometem abusos e desvalorizações).

ALISON
Seus pais demonstram total desinteresse em Alison, que deseja desesperadamente ser notada e fazer conexão emocional com as pessoas, apelando para a mentira, o roubo, ou qualquer recurso pra chamar atenção.

BENDER
Criado por Pais Críticos, abusivos, que geram culpa e dão Carícias Negativas (xingamentos, desvalorizações, tapas).

**Andrew: Certo.E sobre a sua familia?
John Bender: - De quem, minha?
Andrew: - É.
John Bender: - É bem fácil. 
(imitando seu pai) "Estupido... desprezível... ruim, maldito... gastador, filho da puta. Retardado, que fala demais, sabe tudo...cuzão, idiota." 
(imitando sua mãe) "Voce esqueceu feio, preguiçoso e desrespeitador."
(imitando seu pai) "Cala boca, vaca! Vai me fazer uma torta de peru."
(sua própria voz) Mas e você, pai?
(imitando seu pai) "Vai se foder."
(sua própria voz) Não, pai. E você?
(imitando seu pai) "Vai se foder."
(sua própria voz) E você!
(imitando seu pai) "Vai se foder!"
(imitando barulho de soco na cara) Bam!

Difícil saber se a tomada de consciência de que eles não precisam ser o que seus pais dizem e esperam deles irá de fato melhorar a autoestima dos 5 na vida adulta...

 

Orações para Bobby (2009)

Bobby tem autoestima baixa, se acha NÃO OK por sua orientação sexual, e Supõe que sua família jamais irá aceitá-lo* e amá-lo do jeito que é.

Como veremos adiante, sua mãe Mary apresenta COMPORTAMENTO TÍPICO DE PAIS DE CRIANÇAS COM BAIXA AUTOESTIMA (Pai Crítico, que geram culpa nos filhos, dão Carícias negativas, Perfecionistas, desvalorizam o filho) e possui diversos padrões de PENSAMENTOS AUTOMÁTICOS E DISTORÇÕES (Deveres/Obrigações, A fantasia de conto de fadas, Pensamento Tudo ou Nada, Generalização excessiva, Rotular, Catastrofizar, Personalizar).

Mary é uma fanática religiosa, que ao descobrir sobre a atração do filho por pessoas do mesmo sexo num primeiro momento afirma que o filho não é homossexual, e depois usa trechos da bíblia** para Criticar, condenar e ameaçar. 
Ela realmente acredita que se o filho tiver "fé" pode ser "curado"***, e transfere toda a responsabilidade do "tratamento" para Bobby, ao dizer que basta ele confiar em deus e se esforçar o suficiente****.

Mesmo seguindo todas as orientações da mãe e da igreja, Bobby não consegue alterar sua orientação sexual e por consequência se selte Culpado***** (e sua mãe só reforça essa culpa), mas uma aparente consciência parece despertar em Bobby de que o problema não é ele, mas a vergonha que sua mãe sente do que os outros vão achar dela como mãe que fracassou******.

Quando Bobby percebe que o amor da mãe é condicional (só irá amá-lo se ele estiver dentro de um padrão que ela considera de "normalidade" sexual) e parece ter começado a desvincular seu valor como pessoa do que sua família pensa/espera dele, começamos a ter esperança de que uma melhora em sua autoestima é possível*******.

Porém ao dizer que "não vai ter um filho gay"********, sua mãe lança uma espécie de Injunção/Maldição NÃO EXISTA que deixa Bobby com somente duas saídas: deixar de ser gay (que ele obviamente não consegue) ou (SPOILER ADIANTE!) deixar de ser um filho(vivo). Me parece que Bobby aceitou a Injunção/Maldição da mãe e optou pela segunda possibilidade (deixar de existir).

Sua mãe se dá conta e se arrepende tardiamente*********

*- Vocês todos me odeiam. Eu sei. Eu sei que se souberem a verdade, vão me odiar. Não sou como você, Ed.
- E daí?
- Eu continuo tentando. Digo para mim mesmo que um dia vou acordar e será diferente. Mas não é. Eu não sonho com garotas, como você.Sonho com rapazes.
**- Não podemos falhar. Não podemos pecar assim. E este é um pecado terrível. A Bíblia chama de abominação. Em Levítico, se um homem deitar com outro homem, devem ser ambos mortos. Eu não vou arriscar a união da minha família na próxima vida.
- Mary, podemos nos preocupar primeiro com esta vida antes de nos preocuparmos com a próxima?
- Bobby... se há algo errado, deve compartilhar com a sua família. Bobby, somos a sua família. Podemos superar isto. Eu sei que se confiarmos em Deus podemos superar isto. Tem cura com a Sua ajuda.
- Desculpem, não posso evitar. Eu nem mesmo quero, mãe! O que eu faço?
- Bobby, você não é gay. Provavelmente você ainda não conheceu uma garota por quem se sentiu atraído.
***- Se um homossexual que queira renunciar à homossexualidade encontra um psiquiatra que sabe curar a homossexualidade, ele tem todas as chances de ser tornar um heterossexual feliz e bem ajustado.
****1)- Querido Senhor, pedimos que mantenha Bobby a salvo da tentação. Por favor, ajude-o a voltar a ter um coração puro.
- Acha que isto vai me curar?
- Tem que confiar que Deus vai te curar. E que Satanás irá tentar te desencorajar. Confia em Deus?
- Confio. Agora me deixa dormir.
2) - Isto não é você. Isto é a tentação trabalhando seus caminhos. Tem que orar com mais vontade se quer ficar bem.
- Boa noite, mãe.
- Peça perdão enquanto pode. Se acreditar, receberá tudo que pedir em oração. Mateus, 21:22
*****- Nada daquilo que faço parece adiantar. Eu tento e ajo como eles, mas parece impossível. É um sentimento horrível acreditar que possa ir direto para o fogo do Inferno. Pior ainda é todos ficarem dizendo como a solução é simples. Eles não sabem o que é estar na minha pele. Estou correndo, não estou comendo bobagens.
- Bom! Bom!
- É bom, mas... não vejo qual o sentido disso.
******- Olha para o que está vestindo. Já te disse várias vezes para não fazer isso com o braço. Fica parecendo uma garota. E você continua fazendo.
- Eu sempre me vesti assim.
- Não, não se vestia. Tem piorado. Por que faz isto? Estou tentando te ajudar.
- Não, não está. Está tentando ajudar a si mesma. Não tem a ver comigo, tem a ver com o que as pessoas pensam de você. Imagina que eles pensam que o seu filho é uma grande bicha.
-O que há de errado com você? Pára com isso!
*******1)- Pensei que você estava melhor.
- Quando? Quando estava infeliz? Parecia que estava melhorando? Você tem razão, mãe! Estou condenado a apodrecer no Inferno.
- Não diga isso.
- Mas é o que a sua Bíblia diz!
- A Bíblia também diz que uma pessoa pode mudar.
- Eu tentei, mãe! Não consigo.
- Por que continua a escolher isto?
- Por que escolheria isto? Por que escolheria ter a minha família inteira me odiando?
- Não, nós te amamos! Não percebe por que fazemos isso?
- Sério, mãe? É assim que é o amor?
2) Já estou feliz por estar longe de casa e livre. Parece uma nova vida. Um novo dia. E vou ser um sucesso de todas as formas que puder. O meu objetivo é alcançar um sentimento de orgulho e de valor como ser humano.
********- Me sinto bem quando estou com David. Mas se ele me toca em público ou, Deus me livre, me beija, eu o afasto. Sinto vergonha.
- Porque sabe que é errado.
- Porque você me disse que era errado.
- Não sou eu, é a Bíblia.
- Não é a Bíblia. É você! Por que não admite isso? Por que não admite que não suporta aquilo que sou?
- O que se tornou!
- Aquilo que sou!
- Lamento! Não sou o Bobby perfeitinho que sempre desejou. Mas não posso continuar a pedir desculpas por isso, mãe. Me aceite como sou ou me esqueça!
- Não vou ter um filho gay.
- Então, mãe, não tem um filho.
********* Eu não sabia que, cada vez que eu ecoava a condenação eterna aos gays... cada vez que eu me referia ao Bobby como doente e pervertido, e perigoso às nossas crianças... a sua auto-estima, os seus próprios valores, estavam sendo destruídos. E finalmente, seu espírito se quebrou para além de qualquer conserto.

 

Preciosa (2009)

Um dos retratos mais cruéis e didáticos de como a forma que nossos pais nos tratam são essenciais na construção de nossa autoestima.

Preciosa tem baixa autoestima
(SPOILER ADIANTE!) É abusada pelo próprio pai, e sua mãe desde cedo a faz acreditar que a Culpa* é sua.

Além de não ter protegido Preciosa ainda bebê dos constantes abusos sexuais do marido, a mãe inveja a filha, abusa emocionalmente e viola seu corpo obrigando-a a comer comidas gordurosas mesmo sem fome, talvez na esperança de que Preciosa agora obesa fosse rejeitada e ela pudesse reconquistar o desejo do marido. 

Sua mãe não demonstra nenhum tipo de amor por Preciosa (condicional ou incondicional), e possui COMPORTAMENTO TÍPICO DE PAIS DE CRIANÇAS COM BAIXA AUTOESTIMA (Geram Culpa* nos filhos, são Pais Críticos e Abusivos** e Desvalorizam os filhos***)

O excesso de peso perpetua os abusos fora de casa: colegas de classe e meninos na rua provocam e fazem comentários maldosos sobre Preciosa, que faz com que ela sinta ainda mais raiva de si mesma, agravando seus problemas alimentares. Pra Preciosa, comer demais serve tanto como proteção dos avanços sexuais de outras pessoas, mas também como forma de se entorpecer ou "desligar" o próprio corpo de outras sensações desagradáveis como o vazio emocional por exemplo.

Grávida novamente do próprio pai, Preciosa encontra uma professora amorosa que, pelo menos durante um breve período de tempo, faz com que Preciosa acredite que merece ser amada**** pelo que é.

Ao desejar estudar e dar um futuro melhor para seus filhos, Preciosa parece estar na trilha de construção de uma autoestima mais saudável, mas o final do filme (pelo menos pra mim) deixa dúvidas se ela conseguirá manter sua autoestima melhorada ou não.

*1)- Sua porra! Arruinou minha vida! Roubou o meu homem! Teve bebês, porra! E me fez perder o dinheiro da Assistência Social... por causa da sua estúpida boca grande!
- Não sou estúpida! E não roubei o seu homem! Seu marido me estuprou!
- Não te estuprou, porra nenhuma!
2) - Era o meu homem e ele queria a minha filha. E era por isso que eu a odiava. Porque o meu homem que devia me amar, que devia fazer amor comigo, estava fodendo o meu bebê e ela fez ele partir. Ela o fez ir embora.
-Então, de quem foi à culpa?
-Foi culpa dessa puta! Porque permitiu que o meu homem a possuísse.
**1) Você é burra, sua puta! Nunca saberá de nada, ninguém vai te querer nem precisar de você... Vai ficar fodendo com meu homem? E ter dois filhos? E um é um maldito animal, rodeando como um louco filho da puta! Sabe de uma coisa, sua putinha? Acho que me traiu... acho que realmente tá tentando me foder... tá fodendo com minha grana... e fica ai parada me encarando como se fosse uma mulher? Vou te mostrar o que uma verdadeira mulher faz, putinha! Você não sabe o que uma mulher de verdade faz. O sacrifício que uma mulher de verdade faz...meto uma bala no seu traseiro! Você não é merda nenhuma!
2) Minha mãe é como uma baleia num sofá. Diz que não paro de comer, mas ela me força. Então ela me chama de bolo de banha. Diz que o apartamento é pequeno por minha causa.
3) Sabe, vamos falar sobre o seu pai. Conte-me sobre o seu relacionamento com ele. 
- Ele me deu esse bebê, e o meu Mongo antes.
4) - Fale-me sobre o seu primeiro filho?
- Mongo?
- Mongo... é esse...?
- Mongo, é abreviação para Mongolóide.
- É disso que a chama? Ou isso é... o que é isso... um apelido?
- Ela vem para casa, algumas vezes. Minha avó Tootsie traz a Mongo para casa quando a assistente social vem nos visitar. Para parecer que ela vive conosco. Então a minha mãe recebe o dinheiro, e os vales alimentação para mim e a Mongo.
5) Sra. Rain vai cair desmaiada quando souber... que eu nunca estive num médico antes. Não sabem que tive o meu primeiro bebê no chão da cozinha, minha mãe me chutou a bunda.
***1) Só porque ele fez mais filhos em você do que em mim, se acha especial?
2) - Escreva.
- Estou cansada Sra. Rain.
- Se não for por você, então para as pessoas que a amam.
- Ninguém me ama.
- As pessoas te amam, Precious.
- Por favor, não minta pra mim Sra. Rain! O amor não fez nada pra mim. O amor me bate, estupra, me chama de animal, me faz se sentir inútil, me deixa doente.
- Isso não era amor, Precious. O seu bebê te ama. Eu te amo.

***Por que pessoas que mal conheço podem ser legais... sem conheceram a minha mãe e o meu pai? Me sinto amada.